parte 1

A ASTROLOGIA NO CONTEXTO DA ANTIGUIDADE

parte 1

A ASTROLOGIA NO CONTEXTO DA ANTIGUIDADE

As Faculdades Cognitivas

Para completar, foi pelo fim de sua existência - séc. XIII - que todo o conhecimento reconhecidamente tradicional deu mostras do longo e proveitoso amadurecimento por que atravessou e que, como uma árvore que atinge o seu objetivo ao desenvolver frutos, deixou-nos como legado dois estudos importantíssimos que, desde já, se tornam indispensáveis para compreender a concepção que se tinha da inserção do homem dentro do cosmos - e também para vislumbrar quais teriam sido os critérios com que se realizava uma interpretação astrológica. O primeiro estudo se refere aos tratados do escolástico Alberto Magno (1260) sobre o funcionamento da alma humana que, segundo este, se dava e se articulava em sete funções distintas (chamadas de faculdades cognitivas) que descreviam os modos com que o indivíduo percebia, sentia e lidava com as circunstâncias ao seu redor. O segundo estudo se refere aos tratados do filósofo árabe Mohieddin Ibn’Arabi (1230) que associava certas "potências da alma" a alguns planetas celestes.

É claro que não podemos fazer vistas grossas a recente contribuição dada pela psicologia da cognição que, durante toda a sua existência, contribuiu muito para esclarecer as atribuições de cada uma dessas faculdades, revelando o papel de cada uma na integração da personalidade do indivíduo. O quadro de correspondência abaixo tenta ilustrar todo esse conhecimento que assim pode ser resumido e sintetizado:

Astros
Celestes

Faculdades Cognitivas
 

SOL

INTUIÇÃO
percepção imediata que o sujeito tem de determinado dado tão logo este se apresente

LUA

SENTIMENTO
alteração emocional - ora agradável, ora desagradável - que o dado provoca no sujeito

MERCÚRIO

PENSAMENTO
associação que o sujeito faz do dado com outros dados já conhecidos

VÊNUS

FANTASIA
imaginação das infinitas possibilidades que o dado permite e oferece, vislumbradas pelo sujeito

MARTE

ESTIMATIVA
reação instintiva que o sujeito tem perante o poder de ação do dado

JÚPITER

VONTADE
expressão da liberdade que o sujeito se dá perante o dado, moldando-o de acordo com sua vontade

SATURNO

RAZÃO
formulação de regras e leisque o sujeito constrói a partir dos dados obtidos pelas demais faculdades, e com as quais compõe o seu entendimento de mundo

Diante, pois, deste modelo proposto pelas Artes Liberais e pelas Ciências Tradicionais percebemos, espantados, o quanto que o entendimento - seja lá do que for - para o homem moderno corre o risco de se esvanecer e nunca se estruturar, visto a incapacidade da cultura atual em desenvolver seus conhecimentos de uma maneira integrada - o que só seria possível se tivesse conservado na memória a intuição viva do que significou esse universo intelectual e espiritual, onde todas as coisas faziam sentido. Mas, somente agora, em pleno século XX, que alguns desses tratados foram reencontrados (graças aos estudos de antropologia, simbologia e religião comparada), devolvendo então à mente contemporânea um vislumbre do que poderia ter sido esse sistema unificador, essa unidade do conhecimento que coordenava e promovia, de uma só vez, o desenvolvimento científico, artístico e ético do ser humano.

Uma lição, desde já, poderíamos tirar desse patrimônio greco-medieval: há a necessidade de estabelecer uma "relação" entre princípios absolutos e atemporais e a atualidade dos fatos. Aliás, esta é a prerrogativa da ciência moderna que tenta estudar os fatos à luz de princípios - muito embora se esqueça do contexto em que se situa a sua proposta e, por isso mesmo, fica rodopiando em falso, imersa e presa nos fatos. Deveríamos, pois, tentar ver além dos fatos e dos fenômenos. Esse talvez seja o método: ao adotá-lo não fazemos senão seguir o preceito tradicional de tentar unir - como é missão do Homem - o Céu e a Terra, o universal e o particular, o eterno e o provisório. Esta parece ser a lei fundamental de todo o conhecimento que se compõe:

1. de princípios, por um lado;

2. de fatos e fenômenos, por outro;

3. e do misterioso enlace na inteligência humana.