parte 2
A ASTROLOGIA E ALGUNS DOS SEUS IMPASSES
parte 2
A ASTROLOGIA E ALGUNS DOS SEUS IMPASSES
A arte astrológica a caminho de uma ciência astrológica
O verdadeiro intuito da astrologia, ao longo dos tempos, foi sempre o de captar esta essência individual; empreendimento extremamente difícil e que, na maioria dos casos, se revelou fracassado. Afinal, por não conseguirmos discernir e expressar tal essência com clareza e precisão, sempre recorremos ao expediente de retratá-la de maneira metafórica e alegórica. A rigor, só tivemos até hoje uma arte astrológica que, mesmo conseguindo captar intuitivamente esta diferença individual, sempre encontrou dificuldades para descrever o indivíduo puro em face ao meio astronômico, lhe predicando características e propriedades que não lhe pertencem propriamente e que são, sim, do seu meio - lhe são circunstanciais. Desse modo, enquanto a mente humana não dispuser de conceitos claros e precisos para empreender uma tal descrição, ela continuará apelando para descrições alegóricas e artísticas, que são belas, magnéticas e, por isso mesmo, persuasivas - mas que deixam dúvidas com relação a sua veracidade.
A astrologia tem uma raiz metafísica por um lado e, por outro, uma raiz empírica, estando pela sua própria natureza colocada numa linha de demarcação entre uma coisa e outra - daí resultando a enorme complexidade que sua investigação impõe. Por isso que a astrologia sempre foi uma forma de conhecimento considerada nobre por um lado e, por outro, uma grande palhaçada, visto que, pela grandiosidade da sua intenção e do seu objeto ela se mostra nobre mas, pelo seu estudo e desenvolvimento concreto, ela se revela uma lástima. Desse modo, a astrologia ora é vista como rainha e, ora, como prostituta, tomando e perdendo tais status à medida que o homem vai formulando e reformulando a noção da envergadura do próprio fenômeno humano que, desde já, nos parece impossível de ser compreendido apenas por uma única via, isto é, por uma única forma de conhecimento, exigindo pois a convergência de vários e criando, assim, um perfil mais integral do que seja o Homem.
Ademais, toda forma de conhecimento teve a sua fase simbólica e se desenvolveu depois: é o que ocorrerá, um dia, com a astrologia, demarcando então um importante avanço dentro do quadro dos conhecimentos humanos pois ela acabará demonstrando os laços complexos que sempre existiram entre as ciências naturais e humanas. Aliás, todo constrangimento e dificuldade que a astrologia sempre impôs à mente humana reside no fato dela ter como hipótese central a relação de correspondência existente entre o cosmos e os fatos terrestres, como se tudo o que acontecesse aqui na Terra dependesse, de alguma maneira até então inexplicável, da estrutura cósmica, supondo então que o lugar da espécie dentro do universo não seja nada gratuito. Dentro deste contexto, o Homem passa a ser visto como uma "ponte" entre tudo aquilo que o tempo impõe e tudo aquilo que o espaço encerra. A astrologia supõe então um lugar muito especial para o ser humano: o de interventor e mediador entre o céu e a terra, ou seja, entre uma dimensão absoluta e uma dimensão onde tudo é efêmero.
Na antigüidade, este era o retrato do homem, ou seja, o que procurava fazer tudo de acordo com o tempo. Na atualidade, ele tenta fazer de tudo no seu espaço, não considerando o momento, se tornando então joguete de uma história que já não mais manobra e na qual se afunda e se encerra. Não é à-toa que se reclama sobre o sentido da vida - ela não tem mais sentido algum. Não há sequer um único sentido ou direção que possamos tomar, tampouco princípios que assegurem uma correta avaliação da situação, ou valores aos quais a raça humana possa se devotar. É como se todos os princípios intitulados de "humanos" houvessem caído ou sido esquecidos. E pior: quem estabeleceu essa condição na qual nos encontramos foi o próprio ser humano.