parte 2
A ASTROLOGIA E ALGUNS DOS SEUS IMPASSES
parte 2
A ASTROLOGIA E ALGUNS DOS SEUS IMPASSES
A noção de essência e existência
Para entender melhor aquilo que os astrólogos chamam de essência de um ser humano, seria interessante que recorrêssemos a certas noções filosóficas, tais como as Categorias Aristotélicas (10), onde se tentou formular os diversos níveis de propriedades com que um ser (11) se caracteriza e se apresenta, sendo portanto todos os seres compreendidos por qualquer uma dessas categorias, desses "níveis", a saber:
| Categoria | nível de propriedade | descrição exemplo: gato |
| Substância (12) |
se refere ao que é próprio de um ser e de nenhum outro, às suas características mais essenciais e, sem as quais, este ser seria inconcebível pois ele não existiria, sendo impossível a este ser se apresentar de uma outra forma que não esta com que ele necessariamente se apresenta, e sendo essa impossibilidade uma necessidade inerente da sua natureza e não algo imposto - a não ser que se diga que é algo imposto e ditado pela sua própria natureza | - aquele que encarna tudo aquilo que sabemos ser a verdadeira noção da "gatidade", isto é, de um animal mamífero, carnívoro, da família dos felídeos, digitígrados, de unhas retráteis, domesticado pelo homem desde tempo remotos, e usado comumente para combate aos ratos |
| qualidade | se refere às propriedades sensíveis do ser, às características físicas com que ele pode se apresentar e se manifestar | - aquele cuja pelagem ora é branca, ora preta, ora castanha, ora malhada, lisa ou curta e etc... |
| ação | se refere às ações específicas que um determinado ser pode cometer | - aquele que caça ratos |
| paixão | se refere às ações específicas que um determinado ser pode sofrer | - aquele que é caçado por cães |
| relação | se refere às relações específicas que um determinado ser pode manter | - aquele que participa da vida doméstica do ser humano |
São, ao todo, 10 categorias (13), e as cinco acima expostas já servem para demonstrar a preocupação aristotélica em distinguir e verificar qual o nível de propriedade está em questão quando se diz que um ser tem determinada característica: é uma propriedade do nível da qualidade, da ação – ou da própria substância? E isto porque, seja qual for a propriedade que você esteja dando e predicando a um ser ou a um objeto, há de se distinguir os predicados que lhe sejam substanciais e que traduzem as suas características mais essenciais, sendo que todos os outros lhe seriam subordinados, em maior ou menor grau. Para Aristóteles, a substância era o nível de propriedade suprema pois somente ela podia dar conta de uma descrição essencial e de retratar aquilo que um ser é, por mais difícil que fosse realizar verbalmente tal descrição (14).
No entanto, o que cumpre salientar é a noção que Aristóteles formula sobre os acidentes de uma substância, isto é, sobre as características que porventura esse ser toma quando ele assume uma existência e se manifesta, sendo estas características nem sempre essenciais e, na maior parte das vezes, contingentes, provisórias, a encargo do tempo e suas mudanças, refletindo então as diversas maneiras com que um mesmo ser pode existir e se apresentar. Para este filósofo, o acidente "é aquilo que pode pertencer a uma só e mesma coisa, qualquer que ela seja; assim, por exemplo, estar sentado pode pertencer ou não a um mesmo ser determinado, e também branco, pois nada impede que a mesma coisa seja branca ou não branca (15)". O acidente "é aquilo que pertence a um ser e que pode ser afirmado dele em verdade, mas não sendo por isso nem necessário nem constante (16)".
A noção de acidente contrapõe, pois, a de substância visto que, se a substância expressa o que o ser é, os acidentes expressam tudo aquilo que pode ou não acontecer a este ser desde que ele tenha se manifestado e passado a existir. O acidental distingue-se por isso do essencial. Distingue-se também do necessário, de tal modo que o acidente é fortuito e contingente, podendo existir ou não existir, enquanto o necessário expressa uma condição que não pode ser de outro modo e que, por conseguinte, só existe deste modo. Aliás, a palavra necessário, etimologicamente, vem do original nec cedo, significando tudo aquilo que não cede e permanece constante.
Percebemos, assim, que há uma distinção entre substância e acidente da mesma maneira que existe entre essência e existência - sendo a essência uma coisa enquanto a existência é totalmente outra. Por isso, se o horóscopo é de fato um instrumento capaz de retratar uma essência humana, seria necessário que o astrólogo tivesse noção de tal distinção, para que não predicasse o indivíduo com características que não lhe são próprias e essenciais e, sim, circunstanciais.
A dificuldade de entender tal noção de essência ocorre porque, atualmente, só temos a noção do que um ser é pela matéria de que ele é composto, isto é, pelas suas propriedades sensíveis, se esquecendo de que, para que qualquer ser se manifeste, ele vai ter que se manifestar de uma forma e não de outra, sendo esta forma expressa por uma exigência de unidade e de integração que lhe é própria e, por isso mesmo, diferente da de qualquer outro ser, tendo pois cada ser uma forma de se individualizar e de se distinguir dos demais, sendo uno e íntegro de uma forma específica e expressando a sua individualidade de uma forma que lhe é inerente e particular.
Aliás, a noção de unidade sempre ocupou a mente do homem antigo. Para este, sempre houve um misterioso nexo de unidade que coere e dá uma forma específica a tudo que existe e se manifesta, sendo tal unidade a expressão maior de uma necessidade fundamental que cada ser tem para ser o que é. Desse modo, todo ser tem uma forma - uma necessidade - que lhe é própria, e esta forma fundamental e necessária é o retrato e a expressão da sua essência.
Por isso, há certas características nos seres que não são acidentais e, sim, formais (essenciais), visto que cada ser é o que é e só pode se manifestar se cumprir determinadas exigências. A essência expressa, pois, a condição básica e necessária para que qualquer coisa seja e, em termos humanos, é a forma mais fundamental que cada individualidade se arroga e toma. Desse modo, só conhecemos um ser humano - na sua essência - na medida em que reconhecemos ou percebemos as características que são necessárias a sua coesão e unidade, isto é, que são exigidas pela sua identidade. É como diz Christoph Sigwart (17):
"A essência é a unidade de um ente na medida que reivindica para este ente a necessidade de certas propriedades".
Percebemos, assim, que as coisas são o que são justamente porque há uma necessidade imperiosa que faz com que assim elas sejam e não por haverem outras causas intervenientes, de natureza física ou histórica. Afinal, há causas suficientes para que uma maçã apodreça, havendo somente uma única causa para que ela seja mesmo o que é - uma maçã - e não um hipopótamo: a sua exigência formal e estrutural, que é, no máximo, uma causa de natureza ontológica (18). Aliás, se não houvesse esta causa formal determinando que os seres sejam de determinada maneira, eles tomariam aleatoriamente formas variadas, de modo que seria possível a um ser tomar provisoriamente uma forma e depois outra e, assim, de maçã chegar a hipopótamo - o que nunca ocorre. É essa impossibilidade lógica e concreta que faz com que os seres sejam tal como são, distinguíveis e reconhecíveis, com identidade própria - com status ontológico, como diria um bom filósofo - pois têm uma forma que lhes é própria e inerente.
É claro que há as causas eficientes, responsáveis por determinado efeito ou conseqüência esperada - mas há a causa formal, responsável para que uma coisa seja o que ela é . Aristóteles inclusive impôs um requisito adicional às interpretações científicas, exigindo que uma explicação adequada de um processo deveria especificar todos os quatro aspectos da causação. Esses quatro aspectos são os que distinguimos abaixo e, à titulo de exemplo, analisaremos a mudança de cor da pele do camaleão à medida que se desloca numa árvore:
Somente uma diferenciação como esta consegue nos demonstrar que, para que qualquer coisa exercesse uma ação sobre outra, necessariamente teria que ser algo antes pois, se não chegasse a ser nada, se não fosse nada, como poderia então causar ou sofrer uma ação? Seria impossível. É necessário, pois, que o ser que sofra uma ação qualquer seja algo, justamente para que possa sofrer de tal ação. E este algo característico de que se constitui um ser é determinado por um causa de natureza formal e jamais de natureza eficiente ou material, como costumamos pensar (19). Por isso que Aristóteles disse que as categorias da ação e da paixão estão condicionadas às da substância: a ação e a paixão de um ser dependem da sua essência, do que ele é. Desse modo, não apenas as nossas ações estão delimitadas por aquilo que somos como também as nossas paixões, ou seja, aquilo de que só nós podemos padecer e sofrer.
O que possibilita a descrição de um ser em suas características essenciais é justamente essa diferenciação que se dá entre o que, no indivíduo, é formal e essencial e o que, nele, é acidental e circunstancial. É possível, pois, falar de um ser, descrevê-lo em sua essência, desde que saibamos:
1.
2.
distinguir as coisas em essência e em existência;
discernir a exigência formal de cada coisa, que lhe dá unidade e identidade próprias.
Tarefa extremamente árdua e complexa e que nos parece óbvia e enfadonha mas que, se não for executada, jamais permitirá realizar aquilo que a astrologia ao longo dos séculos disse ser capaz: diagnosticar o que é típico e essencial em um ser humano.