parte 2

A ASTROLOGIA E ALGUNS DOS SEUS IMPASSES

parte 2

A ASTROLOGIA E ALGUNS DOS SEUS IMPASSES

Os fatores de emergêcia e predisponência

Reconhecemos que são por demais complexas as relações que se estabelecem entre o que, num ser, é uma propriedade formal e essencial e o que, nele, é somente uma propriedade acidental e circunstancial. No entanto, tal complexidade é muito bem analisada (20) e exposta quando Mário Ferreira dos Santos, filósofo brasileiro, formula as noções de predisponência e emergência que, desde já, mostram-se também indispensáveis para o bom discernimento daquilo que vem sendo chamado de essência individual.

Como vimos, todo ser é o que é justamente por ser, digamos, uma "fusão" de propriedades que lhe são formais e estruturais e outras que lhe são circunstanciais e materiais. Porém, de tudo aquilo que ele concretamente é, há certos aspectos sem os quais ele não poderia ser o que é e nem existir, e outros que poderiam variar sem que no entanto ele deixasse de ser o que é. Desse modo, tudo aquilo que num ser é absolutamente essencial para que ele seja o que é denomina-se emergente; é, em suma, o que vem à existência juntamente com o ser porque, se não viesse desse modo, este ser simplesmente não poderia se manifestar, e não existiria.

Contudo, há outros aspectos no ser que, mesmo não fazendo parte intrínseca dele, mesmo não precisando estar incondicionalmente nele, são necessários também para que o ser exista e, sem os quais, os aspectos emergentes não poderiam se manifestar, sendo estes os aspectos denominados predisponentes. Aliás, é conveniente lembrar que predispor quer dizer "aquilo que está de antemão arranjado, disposto ou ordenado para que algo seja e se torne possível", e isto para que possamos compreender que diversos fatores predisponentes podem proporcionar a emergência de um mesmo ser, o mesmo fator emergente: afinal, existem muitas maneiras de fazer com que uma mesma coisa ocorra. Desse modo, o fator predisponente pode variar mas o emergente não, e isto porque o fator emergente é a própria coisa.

A complexidade que tal abordagem oferece é que as vezes é praticamente impossível saber onde termina a emergência e onde começa a predisponência. A relação do emergente e do predisponente é, pois, muito mais íntima do que parece.

Sabemos, entretanto, que a influência externa que um ser pode sofrer - a paixão - é proporcional a sua forma interna e que, da mesma maneira, a emergência limita a predisponência. Mas ocorre também o contrário, ou melhor: para que um ser surja e apareça, é necessário haver alguma predisposição para tal; do contrário, nada poderia se manifestar, ocorrer e existir. Desse modo, a emergência, para se manifestar, depende de uma condição que a predisponha, sendo porém esta condição múltipla e variada e não essencial, e isto porque, se fosse essencial, seria a própria emergência.

Isto significa que jamais a emergência e a predisponência vão estar separadas e que a identidade concreta de um ser resulta em parte da sua emergência e em parte da sua predisponência, e isto de tal modo que a predisponência jamais se torna alheia à emergência. Os fatores predisponentes atuam, pois, proporcionalmente à natureza do ser, a sua essência, proporcionando à determinada emergência sua manifestação.

É por tais raciocínios que podemos, então, admitir que:

1.

as propriedades que um ser vai adquirindo ao longo da sua existência não podem - e não conseguem - jamais revogar a sua forma, aquilo que ele é, havendo pois uma fusão entre os fatores que predispuseram a emergência desta forma e a forma mesma;

2.

a forma do ser jamais vai emergir e se manifestar de maneira, digamos, pura, mas somente através de elementos que a predispuseram aparecer e que, aos poucos, foram se somando uns aos outros, criando laços complexos entre o que, num ser, é emergente e predisponente - laços porém discerníveis.

Todas estas observações refletem um aprofundamento – rico em detalhes – da visão e do raciocínio de Aristóteles, visto que o ser, para ele, é fruto de uma união entre matéria e forma, sendo que:

matéria = é aquilo que transforma o particular em indivíduo único.

forma = é aquilo que transforma o particular em membro de uma classe de coisas semelhantes. Desse modo, especificar a "forma" de um particular é especificar as propriedades que ele compartilha com outros particulares.

E todas estas observações se fazem necessárias para compreendermos que um ser em particular jamais poderá ser compreendido como "pura forma", visto que esta é igual a de qualquer outro ser da mesma espécie. Afinal, dois seres diferentes não tem igualdade numérica mas podem ter, sim, igualdade específica visto que, pela perspectiva da espécie, a forma seria a mesma para ambos, podendo então ser distinguidos apenas materialmente.

Por isso, se o mapa astrológico retrata uma essência, e se a essência revela uma forma que deve ser compartilhada por todos da mesma espécie, surge uma pergunta: como seria possível deduzir características tão individualizantes de uma estrutura tão essencial como a de uma mapa astrológico? De duas, uma: ou a essência que uma mapa astrológico traduz não é a essência tal como concebida por Aristóteles, ou o ser humano seria o único ser que comportaria um grau de diferenciação a mais de espécie - o que determinaria suas inúmeras variedades.

Talvez o ser humano seja isto: o único ser que se diferencia bem mais além do que é exigido pela forma da sua espécie visto que, se de fato é o único ser em vias de realização, ele se diferenciaria justamente por cada membro da espécie procurar tal realização a sua maneira, prefigurando aquela famosa observação de Goethe:

"o exemplar perfeito de uma espécie já não está mais nesta espécie – ele funda uma espécie".

Mas isto já é passar do território da filosofia para a poesia sem fechar o assunto e sem encontrar nenhuma conclusão. E isto porque talvez o assunto seja muito espinhoso e difícil – prova suficiente de que a dita essência humana impõe muito mais dificuldades de avaliação do que qualquer astrólogo atual imagina.