parte 4

UMA POSSÍVEL ASTROLOGIA PARA A MODERNIDADE

parte 4

UMA POSSÍVEL ASTROLOGIA PARA A MODERNIDADE

A Alta Igreja da Ciência Moderna também não se mostrou, em sua maior parte, menos relutante em examinar a evidência quanto à astrologia. A astrologia é, de acordo com o modelo apresentado, impossível. Por isso, aqueles que afirmam o contrário ou pretendem ter evidências são ou iludidos ou deliberados charlatães que não podem ter lugar em uma sociedade inteligente. Em face de tal tabu, somente os cientistas corajosos é que ainda estão dispostos a levar em consideração a evidência da astrologia, e só os mais valentes estão prontos a dedicar suas energias criativas e reputações na exploração desta ciência proscrita (...) de olhar além da evidência e formular uma teoria realista, rigorosamente elaborada, sobre o modo como a astrologia poderia funcionar. Este processo de busca por conexões causais e de elaboração e teste de teorias que responderão pelos fatos sempre foi a mola mestra da ciência. Como John Addey disse muitas vezes, a astrologia só pode ser beneficiada se as normas da ciência forem seguidas com o máximo rigor possível. (...) É um degrau essencial no processo de restabelecimento deste antiga disciplina a seu lugar de direito entre a fraternidade das ciências. Qual deveria ser exatamente este lugar ainda está sujeito a conjecturas, mas ninguém com mentalidade tolerante pode ter qualquer dúvida de que a dimensão científica da astrologia desafiará gradativamente nosso conceito sobre a relação do homem com o cosmo.
(Charles Harvey)

A Astrocaracterologia: uma pesquisa astrológica

São dessas premissas – colocadas a princípio pelas Ciências Tradicionais - que partimos para elaborar a hipótese que acima demonstramos e que, acrescidas de contribuições dadas por algumas ciências modernas ( psicologia, antropologia, filosofia da ciência, epistemologia, estatística, metodologia e etc), nos permitiu desenvolver, ao longo desses últimos vinte anos, uma pesquisa astrológica que pode confirmar tal hipótese, ou seja, que o mapa astrológico é o mapeamento cognitivo do indivíduo, daquilo que ele espontaneamente presta ou não a atenção - e isto com todas as ressalvas e advertências que a psicologia da cognição, somadas a ontologia, pode nos dar e frisar.

Tal pesquisa é intitulada Astrocaracterologia e foi proposta, nos seus princípios gerais, pelo filósofo Olavo de Carvalho que inclusive ajudou a implantar o movimento astrológico no Brasil através da figura de Emma Costet de Mashville e de sua escola Júpiter (1978). Mas, desde que o rumo do movimento astrológico foi tomando um caminho doentio e inusitado - transformando a prática da leitura astrológica num instrumento, digamos, massageador do ego - Olavo de Carvalho se viu diante da responsabilidade de alterar o rumo deste movimento que ajudara a implantar, se esforçando então para fazer uma verdadeira assepsia na área astrológica - desenvolvendo, assim, os primeiros esboços da pesquisa astrocaracterológica.

A Astrocaracterologia vai assim, à princípio, contra à prática da astrologia atual - a astrolatria - que pretende obter um retrato estático e coisificado dos indivíduos sob a forma de uma descrição puramente exterior. Afinal, hoje em dia, considera-se o auto-conhecimento como a simples identificação de traços de personalidade - se esquecendo de que o "eu" não pode ser conhecido apenas teoricamente mas, sim, vivido e assumido em toda a sua subjetividade. Dessa forma, o auto-conhecimento, tão proclamado em nossa época, deixa de ser visto como luta e realização de valores livremente assumidos e se transforma em mera investigação auto-contemplativa e auto-complacente, curiosidade de desocupados.

É claro que isso só é possível de ocorrer numa cultura em que a economia se tornou a regra, permitindo com que houvesse um terrível descompasso entre educação técnico-científica e formação humanística-filosófica, aumentando cada vez mais a dificuldade em entender o sentido e a realidade da substância individual (do eu), empurrando então a todos para dentro de uma crise de identidade na qual geralmente vive preso o tipo consumidor que vê e considera tudo como transitório e substituível - inclusive o gênero humano. Aliás, a sociedade atual nos põe em contato direto com objetos de fabricação industrial que se sucedem em velocidade vertiginosa, fazendo com que tenhamos uma noção do mundo exterior jamais composto de entes - cada qual com seu status ontológico próprio - mas, sim, composto de aparências transitórias que se fazem e se desfazem, e de que não há nada que seja ou possa ser. A noção de eu, identidade, integridade, essência, neste contexto, se confunde e se perde, e entra num atoleiro de considerações doentias e estapafúrdias.

Sendo assim, se para o homem moderno é difícil compreender o ser em toda sua complexidade e com todas as suas implicações, imagine quão grandiosa é a dificuldade para compreender a astrologia - é imensa!! Aliás, a astrologia, por ter uma raiz metafísica por um lado e, por outro, uma raiz empírica, está - pela sua própria natureza - colocada numa linha de demarcação entre uma coisa e outra, daí resultando a enorme complexidade que sua investigação impõe. Vemos, assim, o quanto que o fenômeno astrológico é muito mais complexo do que pretende qualquer vil moralismo cósmico, impondo discernimentos que fariam com que o próprio Aristóteles ou o próprio São Tomás de Aquino perdessem a cabeça.

Dessa maneira, a Astrocaracterologia pretende demonstrar também que há uma inconsistência metodológica total na área astrológica, impedindo com que uma das formas de conhecimento mais antigas (28) do ser humano tenha respeitabilidade pública e possa ser averiguada, deixando de ser vista então como se fosse uma questão de "crença". A astrologia não é uma crendice, um folclore, uma bruxaria, uma loucura ou um absurdo, assim como pensaram um dia que a medicina, a psicologia e a ecologia o fossem. A astrologia é um fenômeno como qualquer outro e, por mais dificuldades de investigação que ele ofereça, deve e pode ser estudado. Bastaria, para isso, que uma único símbolo astrológico tivesse comprovadamente uma relação com algum fenômeno psicológico - o que, curiosamente, a pesquisa de Michel Gauquelin já deixou a entrever. Mas, por enquanto, a astrologia se limitou a constatação de fatos - onde uns são verdadeiros e, outros, duvidáveis - e a uma observação clínica, sendo por isso mesmo extremamente empírica e não teórica, desenvolvendo então descrições tipológicas que são extremamente persuasivas mas que, infelizmente, traduzem casos particulares e raramente a regra geral.

Em parte isto ocorre porque as pessoas que procuram "estudar" astrologia estão, na realidade, procurando, digamos, uma espécie de muleta cósmica que suporte a fragmentação da própria psique e que dê um simulacro de sentido à própria existência e, ao invés de encontrarem isto, acabam se deparando com uma coisa que só oferece mais problemas - problemas, estes, para os quais não querem atentar e nem tampouco resolver. Temos que reconhecer com honestidade que a astrologia é ainda um enigma como qualquer outro e que, onde buscamos o sentido da vida, só encontramos mais contradições e dúvidas. Aliás, os indivíduos que se recusam a avaliar a complexidade do fenômeno astrológico - e que são qualificadas para estudá-lo - têm medo, digamos, de serem rotuladas de místicas, idiotas, irracionais, e largam o problema, deixando-o nas piores mãos. Desse modo, quem acaba se interessando pelo problema é louco e quem é sadio foge ou não se interessa pelo problema. Entretanto, o tema astrológico é importante e será difícil fugirmos dele.

Urge, por isso, uma pesquisa no campo astrológico. Uma pesquisa que não só tente desenvolver uma técnica diagnóstica do tipo humano determinado pela estrutura celeste mas que organize todo o patrimônio astrológico que se mantém ainda em estado simbólico, transformando-o num estudo sistemático e crítico e descobrindo uma metodologia que lhe seja aplicável. Essa pesquisa, em suma, é a Astrocaracterologia que, como tal, jamais poderia deixar de considerar:

o legado da antropologia e, principalmente, dos estudos de religiões comparadas que recompõem e dão uma vaga idéia do que foram as Artes Liberais dentro do contexto das Ciências Tradicionais (René Guénon, Frithjof Schuon, Titus Burckhardt, Seyyed Hossein Nasr, etc);

as relações que foram estabelecidas pelo filósofo árabe Ibn’Arabi entre os astros celestes e certas "potências" da alma, que nos remete imediatamente à teoria das faculdades cognitivas, elaborada coincidentemente na mesma época pelo filósofo escolástico Alberto Magno;

os resultados da pesquisa estatísitica realizada por Michel Gauquelin, onde se confirma uma das hipóteses astrológicas, isto é, de que indivíduos com determinados planetas em determinadas áreas (29) do mapa acabam se ocupando de determinadas atividades, e isto se ainda foram indivíduos que perseveraram na própria realização;

o legado da psicologia atual, principalmente no que se refere à área da Cognição (Piaget, Wilian Stern, Gordon W. Allport, etc) e à área da Caracterologia ( Klages, Rene Le Senne, Szondi, Jung, etc ), que acabou se constituindo numa ciência completamente própria, com problemas, métodos e objetivos que lhe são inerentes;

o ser humano em toda a sua extensão e complexidade, fazendo-se então necessário erguer um conhecimento antropológico mais abrangente, de orientação filosófica, o que encontramos na antropologia filosófica alemã e na escola filosófica espanhola, cujo expoente foi Ortega Y Gasset.