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| Astrologia
e Caráter |
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Como
vimos, o mapa astrológico não
descreve o que somos mas, sim, o que
pretendemos ser, e isto se nos esforçarmos
para tal ou se tivermos, digamos, sorte.
Desse modo, o indivíduo que está
descrito e esboçado num mapa
astrológico é um indivíduo
genérico e ideal e não
o indivíduo concreto e real.
O indivíduo do qual a astrologia
fala é, sim, um indivíduo
ideal – mas que representa o modelo
ou a figura sonhados por alguém,
aquilo que é o objeto da sua
mais alta aspiração espiritual
e afetiva, se tornando assim a síntese
de tudo a que se aspira, de toda perfeição
que se vislumbra e pode se conceber.
Desse
modo, o homem puro que se reflete no
mapa astrológico - o homo
astrologicus - é, queiramos
ou não, uma abstração.
Uma abstração muito especial,
é certo, que parece traduzir
não somente aquilo que de emergente
e essencial há em todo homem
como também o sentido e a direção
que se esforça por tomar dentro
da múltipla experiência
humana. Mas, como toda e qualquer
abstração, deve e
pode ser tratado como um enfoque-limite,
isto é, como um enfoque que abstrai
do indivíduo concreto e real
aquilo que nele se diz essencial.
É
assim que percebemos que o homo astrologicus
é uma camada do ser
humano e não um ser humano concreto
e real. Esta camada tem características:
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| 1. |
como
ela traduz o que há de
essencial e de emergente num ser
humano, refere-se justamente àquilo
que há de fixo e imutável
numa personalidade, revelando
então uma espécie
de grade estática
por onde qualquer força
que passe terá que assumir
a forma dela, exigindo
inclusive do indivíduo
que ele imponha esta forma
às circunstâncias;
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| 2. |
como
ela é a menos determinada
de todas por qualquer condição
efetiva do meio em torno e como
ela é a melhor expressão
da emergência pura, ela
não pode ser alterada em
hipótese alguma pelo que
venha a lhe acontecer. Isso quer
dizer que uma mesma emergência
- uma mesma essência - é
compatível com uma multidão
de predisponências diferentes
e possíveis e que, portanto,
um determinado horóscopo
pode refletir várias personalidades
diferentes, e isto conforme as
predisponências (as circunstâncias)
onde tenha nascido e se inserido
(26);
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| 3. |
como
ela expressa o que há de
fixo e imutável numa personalidade
individual, deixa a entender que
deverá haver algo de fixo
e imutável na psique para
que tal avaliação
seja válida. Desse modo,
se nada de fixo e imutável
houver numa estrutura psicológica
individual - e isto para além
das tão proclamadas influências
familiares e sociais - a avaliação
de tal camada (a avaliação
astrológica) se torna impossível.
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Portanto,
urge saber se dentre tudo o que foi
pesquisado em nome da psicologia humana
há alguma referência sobre
uma estrutura de base ou sobre
uma camada da personalidade que
permaneça estável por
toda a vida. Encontramos tal referência
num estudo chamado Caracterologia,
cujo objeto de investigação
é chamado de caráter
e que é descrito como:
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| a. |
"um
feixe de traços que conferem
a um indivíduo uma originalidade
natural. O termo engloba,
portanto, não só
as disposições estáveis
e inatas mas também a
maneira pela qual o sujeito explora
essa base primitiva. O caráter
aparece como resultante ou resultado
de uma ação sobre
um dado suscetível de evoluir"
(Roger Gaillat);
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| b. |
"o
núcleo constitucional primitivo
do psiquismo humano. É
uma estrutura psico-fisiológica
ao mesmo tempo organizadora
e relacional que coloca o
indivíduo, de maneira original,
em relação constante
e dinâmica com o dado existencial"(Roger
Gaillat);
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| c. |
"uma
unidade viva, ou a qualidade
distintiva essencial de uma alma
individual. Afinal, todo homem
é dotado de uma alma mas
possui, além disso, um
espírito, quer dizer: ele
é um eu ou um si.
Por isso, num sentido muito específico,
o caráter é a
qualidade da vontade pessoal,
assinalando condições
constantes que revelam uma certa
direção preferencial
de um eu ou de uma consciência
- o que determina, portanto,
entre outras coisas, as metas
às quais alguém
se sente impelido" (Ludwig
Klages).
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Sendo
assim, e seguindo uma idéia de
Henri Wallon, é essa camada da
personalidade chamada de caráter
que acaba explicando porque é
que, na presença das mesmas circunstâncias,
dois indivíduos que dispõem
da mesma educação familiar,
da mesma influência social e até
mesmo de capacidades idênticas
reagem de modo completamente diferentes:
afinal, cada um tem uma maneira distinta
de interpretar a situação
ao redor e reagir a ela porque
cada um observa, valoriza e reage à
situação de um modo que
lhe é muito próprio.
É
o caráter, então,
que vem a dar um diferencial à
personalidade, fazendo com que cada
pessoa venha a viver sua vida e a escrever
sua história de uma maneira que
lhe é muito peculiar. Se tomamos
o termo caráter (27)
em sua acepção etimológica,
seremos forçados a considerar
que toda marca que porventura
uma pessoa venha a deixar na vida foi
fruto do seu esforço pessoal,
isto é, foi fruto da tentativa
de reunir tudo o que conhece e o
que desconhece de si para atingir uma
meta que tenha se proposto. Afinal,
existe dentre de todos nós, sob
o amontoado de confusões, uma
unidade viva que incessantemente
não deixa de murmurar certas
sugestões que deveríamos
escutar e acatar, já que elas
são a expressão máxima
da nossa realização pessoal,
isto é, do nosso destino, da
única tarefa que nos cabe.
É
o caráter que traduz então
- em termos humanos - as características
que são necessárias à
coesão e unidade da personalidade
e que formam uma identidade. Porém,
o caráter - que é uma
camada - não é e não
pode ser a expressão total e
literal do indivíduo concreto
e particular ( dado que este tem também
uma carga genética, uma educação,
uma história afetiva e social
e etc, sendo sua personalidade total
composta de várias camadas )
mas pode ser, em raríssimas vezes,
a expressão final que esta personalidade
assume visto que, por perseverar a sua
maneira, acaba impondo sua forma
às circunstâncias,
elevando assim o seu potencial caracterológico
à qualidade de personagem,
isto é, de um ser humano
que deixa uma marca na humanidade ou
pelos seus feitos ou pelo seu comportamento.
Vemos,
assim, que a noção de
caráter engloba não tão
somente a causa formal, tal como definida
por Aristóteles, mas também
uma outra causa, a que ele dava o nome
de causa final. Aristóteles
inclusive insistia sobre o fato de que
toda explicação científica
de uma correlação ou processo
deveria incluir um relato da sua causa
final, ou telos. Explicações
teleológicas são explicações
que utilizam a explicação
"a fim de que" ou equivalentes
a esta.
Interpretações
teleológicas, no entanto, não
carecem da pressuposição
da deliberação e escolha
conscientes. Mas dizer, por exemplo,
que "camaleões mudam de
cor para escaparem à detecção"
não é atribuir uma atividade
consciente aos mesmos. Também
não é afirmar que o comportamento
dos camaleões implementa algum
"propósito cósmico".
No entanto, interpretações
como esta pressupõem que um
futuro estado de coisas determina o
desenrolar de um estado presente:
uma bolota se desenvolve como o faz
a fim de realizar a sua finalidade
natural de acabar sendo um carvalho;
uma pedra cai a fim de atingir
a sua meta natural – um estado de repouso
tão próximo quanto possível
ao centro da Terra. Em cada caso, o
estado futuro "puxa consigo"
a sucessão de estados que leva
a ele.
O
caráter humano teria esta mesma
característica e seria, assim,
um misto de causa formal e final, expressando
não somente aquilo que de emergente
e essencial há em todo homem
como também o sentido e a direção
que ele se esforça por tomar
dentro da múltipla experiência
humana, prefigurando aquela famosa observação
de Ortega Y Gasset:
"A
reabsorção das circunstâncias
é o destino concreto do homem"
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