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ÍNDICE
Apresentação
Nota preliminar
Dedicatória
Introdução
Etimológica
Parte 1
A ASTROLOGIA NO CONTEXTO DA ANTIGUIDADE
o sistema das Artes Liberais
as faculdades cognitivas
a cosmovisão tradicional e a cosmovisão moderna
Parte 2
A ASTROLOGIA E ALGUNS DOS SEUS IMPASSES
a noção de essência e existência
os fatores de emergência e predisponência
a complexa noção de cidadania cósmica
a arte astrológica a caminho de uma ciência astrológica
Parte 3
NOÇÕES ASTROLÓGICAS
astrologia e céu
astrologia e cosmovisão
astrologia e destino
astrologia e caráter
uma proposta para a interpretação astrológica
Parte 4
UMA POSSÍVEL ASTROLOGIA PARA A MODERNIDADE
a astrocaracterologia: uma pesquisa astrológica
a astrologia, as ciências e o debate astrológico
a astrologia e a sua fundamentação
Bibliografia
 
 
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Astrologia e Caráter
 
 

Como vimos, o mapa astrológico não descreve o que somos mas, sim, o que pretendemos ser, e isto se nos esforçarmos para tal ou se tivermos, digamos, sorte. Desse modo, o indivíduo que está descrito e esboçado num mapa astrológico é um indivíduo genérico e ideal e não o indivíduo concreto e real. O indivíduo do qual a astrologia fala é, sim, um indivíduo ideal – mas que representa o modelo ou a figura sonhados por alguém, aquilo que é o objeto da sua mais alta aspiração espiritual e afetiva, se tornando assim a síntese de tudo a que se aspira, de toda perfeição que se vislumbra e pode se conceber.

Desse modo, o homem puro que se reflete no mapa astrológico - o homo astrologicus - é, queiramos ou não, uma abstração. Uma abstração muito especial, é certo, que parece traduzir não somente aquilo que de emergente e essencial há em todo homem como também o sentido e a direção que se esforça por tomar dentro da múltipla experiência humana. Mas, como toda e qualquer abstração, deve e pode ser tratado como um enfoque-limite, isto é, como um enfoque que abstrai do indivíduo concreto e real aquilo que nele se diz essencial.

É assim que percebemos que o homo astrologicus é uma camada do ser humano e não um ser humano concreto e real. Esta camada tem características:

 
1.

como ela traduz o que há de essencial e de emergente num ser humano, refere-se justamente àquilo que há de fixo e imutável numa personalidade, revelando então uma espécie de grade estática por onde qualquer força que passe terá que assumir a forma dela, exigindo inclusive do indivíduo que ele imponha esta forma às circunstâncias;

2.

como ela é a menos determinada de todas por qualquer condição efetiva do meio em torno e como ela é a melhor expressão da emergência pura, ela não pode ser alterada em hipótese alguma pelo que venha a lhe acontecer. Isso quer dizer que uma mesma emergência - uma mesma essência - é compatível com uma multidão de predisponências diferentes e possíveis e que, portanto, um determinado horóscopo pode refletir várias personalidades diferentes, e isto conforme as predisponências (as circunstâncias) onde tenha nascido e se inserido (26);

3.

como ela expressa o que há de fixo e imutável numa personalidade individual, deixa a entender que deverá haver algo de fixo e imutável na psique para que tal avaliação seja válida. Desse modo, se nada de fixo e imutável houver numa estrutura psicológica individual - e isto para além das tão proclamadas influências familiares e sociais - a avaliação de tal camada (a avaliação astrológica) se torna impossível.

 

Portanto, urge saber se dentre tudo o que foi pesquisado em nome da psicologia humana há alguma referência sobre uma estrutura de base ou sobre uma camada da personalidade que permaneça estável por toda a vida. Encontramos tal referência num estudo chamado Caracterologia, cujo objeto de investigação é chamado de caráter e que é descrito como:

 
a.

"um feixe de traços que conferem a um indivíduo uma originalidade natural. O termo engloba, portanto, não só as disposições estáveis e inatas mas também a maneira pela qual o sujeito explora essa base primitiva. O caráter aparece como resultante ou resultado de uma ação sobre um dado suscetível de evoluir" (Roger Gaillat);

 
b.

"o núcleo constitucional primitivo do psiquismo humano. É uma estrutura psico-fisiológica ao mesmo tempo organizadora e relacional que coloca o indivíduo, de maneira original, em relação constante e dinâmica com o dado existencial"(Roger Gaillat);

 
c.

"uma unidade viva, ou a qualidade distintiva essencial de uma alma individual. Afinal, todo homem é dotado de uma alma mas possui, além disso, um espírito, quer dizer: ele é um eu ou um si. Por isso, num sentido muito específico, o caráter é a qualidade da vontade pessoal, assinalando condições constantes que revelam uma certa direção preferencial de um eu ou de uma consciência - o que determina, portanto, entre outras coisas, as metas às quais alguém se sente impelido" (Ludwig Klages).

 

Sendo assim, e seguindo uma idéia de Henri Wallon, é essa camada da personalidade chamada de caráter que acaba explicando porque é que, na presença das mesmas circunstâncias, dois indivíduos que dispõem da mesma educação familiar, da mesma influência social e até mesmo de capacidades idênticas reagem de modo completamente diferentes: afinal, cada um tem uma maneira distinta de interpretar a situação ao redor e reagir a ela porque cada um observa, valoriza e reage à situação de um modo que lhe é muito próprio.

É o caráter, então, que vem a dar um diferencial à personalidade, fazendo com que cada pessoa venha a viver sua vida e a escrever sua história de uma maneira que lhe é muito peculiar. Se tomamos o termo caráter (27) em sua acepção etimológica, seremos forçados a considerar que toda marca que porventura uma pessoa venha a deixar na vida foi fruto do seu esforço pessoal, isto é, foi fruto da tentativa de reunir tudo o que conhece e o que desconhece de si para atingir uma meta que tenha se proposto. Afinal, existe dentre de todos nós, sob o amontoado de confusões, uma unidade viva que incessantemente não deixa de murmurar certas sugestões que deveríamos escutar e acatar, já que elas são a expressão máxima da nossa realização pessoal, isto é, do nosso destino, da única tarefa que nos cabe.

É o caráter que traduz então - em termos humanos - as características que são necessárias à coesão e unidade da personalidade e que formam uma identidade. Porém, o caráter - que é uma camada - não é e não pode ser a expressão total e literal do indivíduo concreto e particular ( dado que este tem também uma carga genética, uma educação, uma história afetiva e social e etc, sendo sua personalidade total composta de várias camadas ) mas pode ser, em raríssimas vezes, a expressão final que esta personalidade assume visto que, por perseverar a sua maneira, acaba impondo sua forma às circunstâncias, elevando assim o seu potencial caracterológico à qualidade de personagem, isto é, de um ser humano que deixa uma marca na humanidade ou pelos seus feitos ou pelo seu comportamento.

Vemos, assim, que a noção de caráter engloba não tão somente a causa formal, tal como definida por Aristóteles, mas também uma outra causa, a que ele dava o nome de causa final. Aristóteles inclusive insistia sobre o fato de que toda explicação científica de uma correlação ou processo deveria incluir um relato da sua causa final, ou telos. Explicações teleológicas são explicações que utilizam a explicação "a fim de que" ou equivalentes a esta.

Interpretações teleológicas, no entanto, não carecem da pressuposição da deliberação e escolha conscientes. Mas dizer, por exemplo, que "camaleões mudam de cor para escaparem à detecção" não é atribuir uma atividade consciente aos mesmos. Também não é afirmar que o comportamento dos camaleões implementa algum "propósito cósmico". No entanto, interpretações como esta pressupõem que um futuro estado de coisas determina o desenrolar de um estado presente: uma bolota se desenvolve como o faz a fim de realizar a sua finalidade natural de acabar sendo um carvalho; uma pedra cai a fim de atingir a sua meta natural – um estado de repouso tão próximo quanto possível ao centro da Terra. Em cada caso, o estado futuro "puxa consigo" a sucessão de estados que leva a ele.

O caráter humano teria esta mesma característica e seria, assim, um misto de causa formal e final, expressando não somente aquilo que de emergente e essencial há em todo homem como também o sentido e a direção que ele se esforça por tomar dentro da múltipla experiência humana, prefigurando aquela famosa observação de Ortega Y Gasset:

"A reabsorção das circunstâncias é o destino concreto do homem"

 
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