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O
ser humano sempre nutriu um grande terror
de confirmar que há algo mesmo
no céu que determina - seja em
que grau for - os fatos aqui na Terra,
visto que para ele tal confirmação
certamente eliminaria por definitivo
a sua possibilidade de livre decidir.
O que é um grande absurdo: o
Homem sempre pode decidir contra ou
a favor do que quisesse, por maior que
fossem os obstáculos e por menos
que soubesse avaliar a própria
situação. O Homem sempre
pode dizer sim ou não, pagando
um preço por contrariar e negar
aquilo que lhe impõe alguma resistência
e se mostra real. Desse modo, o Homem
pode até agir contra si mesmo,
se quiser, contrariando seus valores
e o que julga fundamental. Mas pode
agir a favor - e a sua liberdade não
fica de maneira nenhuma limitada por
ter que agir a favor da própria
natureza. Aliás, é
assim que ela se expressa, com todo
o seu poder (23).
Ademais, são estes valores pessoais
que, ao longo da história, vão
se consolidando e se mostrando como
os mais dignos da própria espécie,
e que sempre norteiam o indivíduo
no sentido de definir qual o melhor
caminho a tomar. Aliás, foi justamente
o fato de alguns homens terem devotado
a própria vida a alguns princípios
e personificado alguns valores que fez
com que o rumo da história fosse
mudado, para o bem ou para o mal.
Isto
nos faz crer que, se há algo
que possa nortear a conduta tão
duvidosa dos homens, este algo se
refere exatamente aos princípios
ditos humanos, por mais que estes, de
pessoa a pessoa, sejam variáveis.
Afinal, há pessoas que fazem
a vida, por exemplo, totalmente voltadas
para si mesmas, para a auto-estima,
para o respeito próprio, enquanto
há pessoas que são completamente
voltadas para o outro, para o
convívio mútuo. Mas,
de qualquer forma, tanto o respeito
próprio quanto o convívio
mútuo são princípios
humanos fundamentais, dos quais uma
ou outra pessoa se investe para se orientar
e construir a própria vida. São
princípios com que a pessoa se
identifica e dos quais não consegue
abrir mão - o que, se fosse feito,
significaria a destruição
total da sua identidade. Aliás,
ela nem mesmo concebe que a vida
possa ser levada de outra forma.
Cada
ser humano, pois, se espelha - ou procura
se espelhar - em determinado princípio
que tem como fundamental para si mesmo.
E isto, como se sabe, é uma questão
de natureza psicológica. O que
devemos nos lembrar, entretanto, é
que o céu sempre foi a instância
para onde o Homem mirou a sua atenção
para se orientar em pleno mar, tanto
quanto para constatar determinado período
favorável às plantações
- o que, como se sabe, é uma
questão da área das navegações
e da agricultura. Entretanto, o céu
sempre foi também o lugar de
personificações míticas
das mais extravagantes, de Deuses que
resumiam, em sua própria epopéia,
a consagração de determinados
valores humanos - o que, por sua vez,
é uma questão de natureza
simbólica. Poderíamos
até nos valer da noção
bíblica de que o homem deve procurar
ser "a imagem e o reflexo de Deus"
para lançar uma hipótese
astrológica derradeira: o
céu de nascimento de um indivíduo
traz a imagem - ou personifica - aquilo
que ele pretende ser, ou os valores
aos quais dedicará toda a sua
vida. Aliás, foi exatamente
isto que a pesquisa de Michel Gauquelin
(24)
deixou entrever: cada personalidade
célebre fez da própria
vida exatamente aquilo que estava prefigurado
no céu no instante do seu nascimento
e, por isso, deduzimos que a vida
de qualquer indivíduo que persevere
na sua realização acaba
tomando o desenho e a forma do seu mapa
astrológico.
É
claro que a nossa dedução
não está baseada nesta
noção bíblica –
mesmo que ela seja uma maneira persuasiva
de apresentar a situação,
como alguns poderão pensar. A
nossa dedução está
baseada em vários fatores que
veremos mais adiante, tanto quanto ao
valor e o significado do céu
dentro da cosmovisão tradicional,
sem os quais qualquer correspondência
entre o homem e o espaço sideral
se torna incompreensível. Na
cosmovisão tradicional, como
já expusemos anteriormente, a
totalidade da natureza sideral configurava
uma zona de indeterminação
e era considerada como um mundo intermediário,
área de transição
entre :
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sendo
esta a única dimensão
que corresponde simultaneamente ao Homem
e ao Céu em toda e qualquer cosmovisão
tradicional. O Céu estaria, assim,
no mesmo plano em que se situa o Homem.
Percebemos,
assim, que a astrologia aponta para
o fato de que os tipos humanos - esboçados
pelos horóscopos - não
são apenas criação
e concepção da mente humana
mas, sim, dados que fazem parte intrínseca
do real (como uma espécie de
simbolismo natural ), não
podendo ser pois pura invenção
já que estão sendo interpretados.
Desse modo, parece que fazemos parte
de uma grande estrutura cósmica,
como se fôssemos peças
inconscientes do grande mecanismo a
que pertencemos - o que facilmente nos
remete à imagem de um relógio
ou de um mecanismo vivo ( um cérebro,
por exemplo), que são imagens
recorrentes na astrologia. Aliás,
o pressuposto mesmo da astrologia é
de que o cosmos pensa e pensa humanamente,
isto é, como se fosse um
homem, tendo pois uma intenção,
e de que fazemos parte de um pensamento
cósmico e de uma intenção
cujo vulto nos escapa, sendo então
o mapa astrológico o instrumento
que nos permitiria avaliar a ambos.
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