EDIL CARVALHO
edil.carvalho@uol.com.br
ASTROLOGIA E CINEMA - UMA COSMOVISÃO

Introdução
As observações que se seguem fazem
parte do curso ASTROLOGIA & CINEMA:
UMA COSMOVISÃO, e visam demonstrar
uma hipótese que à primeira vista
pode soar tão incompreensível quanto
surpreendente: de que os astros
determinam a nossa visão de vida,
ou seja, a maneira muito particular
como cada um de nós vê e aborda
o mundo.
Para demonstrar tal hipótese, nada melhor
do que analisar filmes de cinema - justamente
porque esta forma de expressão é considerada
"a arte da visão" por excelência. Através
desta análise, será possível perceber
que cada cineasta tem um modo de ver
muito característico que não só se repete
ao longo de sua filmografia mas que
também se manifesta no modo como vive,
em sua biografia - e que este "modo
de ver o mundo" é de natureza astrológica.
Aliás, para a Semiótica , toda obra
artística tem uma estrutura interna
que a sustenta e edifica. Já para a
Biografia , toda vida humana tem um
script que lhe dá uma desenvoltura bastante
característica. Por incrível que pareça,
vida & obra configuram um certo padrão
através do qual o artista - o ser humano
- pode ser reconhecido.
A tese lançada por este trabalho é exatamente
esta: de que este padrão, tanto estético
quanto biográfico, pode ser diagnosticado
pela Astrologia, e isto se ela for considerada
em seu aspecto cognitivo, tal como a
obra do grande filósofo árabe Mohieddin
Ibn' Árabi já deixava entrever em pleno
século XIII, e para quem os planetas
celestes representavam certas "potências
da alma". Neste sentido, a Astrologia
se torna o elo, o pano de fundo comum
e intermediário entre a Arte e a Vida.
entendendo a personalidade humana:
a constelação de valores pessoais
Para Gordon W. Allport , um dos nomes
mais conhecidos da Psicologia contemporânea,
o homem, no decorrer da sua evolução,
e confrontado com um número cada vez
maior de solicitações, se viu forçado
a desenvolver um sentido discriminatório
da importância das mesmas. Ou melhor:
os problemas impostos pela vida sempre
exigiram que o homem escolhesse, levando-o
a conferir um sentido de importância
maior a algumas experiências e a relegar
as outras a uma posição secundária.
Para Allport esta eleição hierárquica
ocorre porque há experiências que são
centrais para o sentido de existência
do sujeito; experiências, estas, que
concorrem para o desenvolvimento do
seu sentido de identidade. Ao se tornar
adulta, a criança deixa de se identificar
somente com os seus pais e passa a procurar
referências nos grupos, na nação e,
num grau último, em certos valores e
ideais. Num certo sentido, ela descobre
que há valores com que se preocupa profundamente
e que a sua personalidade reflete e
encarna.
Por isso é que, para ele, os ideais
e os valores exercem um papel tão fundamental
no desenvolvimento psicológico: são
eles que determinam a quê o individuo
vai subordinar livremente a sua vida,
traçando um esboço daquilo que pode
ser chamado de "projeto vital". Aliás,
o próprio Allport emprega um termo da
filosofia medieval para lembrar que
há uma "intencionalidade" movendo a
vida humana - e que esta intencionalidade
representa justamente a forma muito
particular como alguém se dirige para
o futuro. Essas amplas disposições intencionais
só podem apontar para um futuro, e determinam
por isso mesmo os traços mais marcantes
da personalidade de um sujeito - os
traços que justamente lhe dão forma.
Por isso é que, para Allport, a personalidade
humana só se firma e desabrocha quando
se mantém fiel a uma hierarquia de interesses.
E é por isso que só se conhece alguém
quando se conhece a sua "ordo amoris":
as aspirações que o sujeito nutre com
relação a si mesmo, a sua auto-imagem
ideal. É ela quem traça uma linha pela
qual o indivíduo se orienta e escreve
a sua própria história. Aliás, uma grande
parte do desenvolvimento psicológico
só se realiza por causa desta auto-imagem:
é ela quem nos auxilia a combinar nossa
visão do presente com nossa visão de
futuro. É ela quem define na maioria
das vezes uma ambição profunda e sadia
e, por isso mesmo, pode ser tomada como
um "mapa cognitivo compreensivo" da
personalidade individual.
Desse modo, para se compreender uma
personalidade humana, basta que prestemos
atenção nas direções principais do seu
esforço ao longo de toda a sua vida,
por maiores que sejam as tensões que
daí advenham. Basta que consideremos
a constelação de valores em torno do
qual a vida do sujeito orbita ou, como
já defendia Spranger , o sistema de
valores que o sujeito encarna. São estes
valores que conferem uma marca muito
própria à personalidade e submetem a
vitalidade psicológica a uma rede de
significados, selecionando e inibindo
motivações de outras ordens.
O que no entanto, impressiona este notável
pesquisador é que estes valores não
são infinitos em número - e que por
isso mesmo os profissionais que trabalham
com psicodiagnósticos deveriam desenvolver
um teste que permitisse detectar essas
unidades mais compreensivas da personalidade.
Que teste poderia ser este? Se não estiver
enganado em minhas análises, creio que
o mapa astrológico cumpre exatamente
esta função: o de diagnosticar a constelação
de valores fundamentais em torno da
qual a vida de cada pessoa orbita, fazendo
justamente com que uma se diferencie
da outra.
entendendo a personalidade humana:
as direções da atenção
Para Ludwig Klages , que elevou os estudos
tipológicos à categoria de ciência,
ao se tentar definir e descrever um
indivíduo, deve-se perceber como ele
se manifesta e reage às circunstâncias
e, desse jogo de ações e reações, deve-se
notar sobretudo os seus comportamentos
mais constantes - a que ele dá o nome
de caráter.
Esta definição está baseada na etimologia
da própria palavra que, em grego (charassein)
designa o ato de marcar, cunhar e, por
conseqüência, as marcas, os traços e
as propriedades mais características
de um ser, que o distinguem dos demais.
Aliás, a palavra chassi é derivada deste
vocábulo e, como sabemos, o chassi de
um carro traz gravado em si um número
que lhe é próprio e distintivo.
Para Klages, o caráter é a base da personalidade
e revela a sua condição natural e inerente,
sobre a qual incidem todas as outras
influências, sejam elas sociais e até
mesmo psicológicas. Se o indivíduo pode
ser considerado como uma "tabula rasa"
sobre a qual a vida se escreve e tal
como uma vertente da psicologia da época
costumava defender, para Klages, cada
indivíduo - cada "tabula rasa" - era
composta de uma matéria diferente e
por isso, caso fosse de pedra ou de
argila ou de vidro ou de papel sofreria
diferentemente a cada influência recebida.
O caráter, para ele, era a matéria básica
da personalidade.
No entanto, a dificuldade em compreender
esta camada da personalidade e de levar
adiante os estudos sobre a diferença
e a singularidade humana se deu por
conta de uma confusão cometida ao longo
da história da psicologia: os instintos
(triebe) foram confundidos de tal modo
com os interesses (triebfedem) que se
tornou praticamente impossível compreender
o jogo dialético que estas duas forças
impõem uma à outra e, sobretudo, o papel
de cada uma no desenvolvimento psicológico
e na construção da personalidade - sobretudo
o papel dos interesses, que determinam
as direções da vontade individual.
Esta observação de Klages coincide com
uma das críticas mais ácidas que o próprio
Allport fez a psicologia corrente pois,
para este, a grande maioria dos estados
da mente só pode ser adequadamente descrita
em termos de futuridade, ou seja, ao
se entender a grade de interesses e
de valores que move um ser humano. Mas
para isso seria necessário desenvolver
um tipo de abordagem psicológica que
transcendesse a tendência que ainda
hoje prevalece de explicar o homem única
e exclusivamente em função do seu passado,
visto que o futuro também move e determina
o ser humano.
Por isso é que, para Klages, o caráter
é definido como "uma unidade viva, ou
a qualidade distintiva essencial de
uma alma individual. Afinal, todo homem
é dotado de uma alma mas possui, além
disso, um espírito, quer dizer: ele
é um eu ou um si. (...) Por isso, num
sentido muito específico, o caráter
é a qualidade da vontade pessoal, assinalando
condições constantes que revelam uma
certa direção preferencial de um eu
ou de uma consciência - o que determina,
portanto, entre outras coisas, as metas
às quais alguém se sente impelido".
Vemos, assim que, para este notável
pesquisador, o que distingue um ser
humano do outro é a direção preferencial
da sua atenção que, em outras palavras,
quer dizer: aquilo a que alguém presta
atenção e olha.
Klages, aliás, tem uma maneira muito
interessante para provar que cada indivíduo
se diferencia de outro por conta deste
olhar, desta atenção, desta grade de
valores específica. Ele diz: se um indivíduo
pode ser considerado honesto, que motivos
e razões ele teria para proceder como
tal? Para Klages, há sujeitos que são
honestos justamente porque querem passar
a melhor imagem de si mesmos, enquanto
há outros que assim agem por receio
do código penal. Desse modo, ele tenta
demonstrar que por detrás de uma mesma
característica e de um mesmo comportamento
- a honestidade, por exemplo - há um
valor que os distingue. Há, por detrás
dos comportamentos, todo um olhar, toda
uma atenção voltada e roubada por este
ou aquele valor.
E, da mesma maneira que as constelações
celestes sempre serviram e ainda servem
de guia para orientar os navegadores,
quem sabe elas prefigurem - de uma maneira
surpreendente e inexplicável - esta
constelações de valores que nos move
ao longo de toda nossa existência.
a Astrologia e as 12 direções da
atenção:
O sistema astrológico sempre foi considerado
uma espécie de catálogo onde o ser humano
foi registrando e depositando, ao longo
dos séculos, todas as experiências que
lhe eram mais recorrentes e fundamentais.
E se analisarmos mais de perto um dos
componentes deste sistema - o sistema
das Casas Astrológicas - perceberemos
que ele descreve exatamente a perspectiva
que se abre entre o sujeito nascido
e o mundo em torno, isto é, entre um
posto de observação e a esfera celeste,
demarcando por isto mesmo um campo de
atenção.
Por isso, se há alguma estrutura do
mapa astrológico que possa descrever
e diagnosticar os diferentes campos
da atenção humana, esta seria exatamente
aquela de que se compõe o sistema das
Casas Astrológicas. É ela quem descreveria
os possíveis campos da atenção individual,
ou melhor, as perspectivas humanas fundamentais,
através das quais tudo seria percebido,
sentido e até mesmo alterado.
Mas... que perspectivas fundamentais
seriam estas, através das quais cada
indivíduo, a sua maneira, procuraria
ver o mundo e se orientar?
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Estas perspectivas se tornariam determinantes
para cada indivíduo à medida que um
dos sete planetas da Astrologia Tradicional
estivesse disposto numa destas Casas
do seu mapa natal, configurando assim
os focos naturais da sua atenção e conferindo
um sentido de importância maior a estas
experiências - e não as outras, representadas
pelas Casas que se encontrassem vazias.
No entanto, para que esta hipótese seja
analisada e demonstrada, nada melhor
do que avaliar filmes de cinema feitos
por diretores com obra de cunho autoral,
verificando em que medida ela se mostra
marcada por certo tema - revelando,
assim, uma direção preferencial da sua
atenção.
É o que pretendo demonstrar agora com
a análise do filme que se segue abaixo.
ANÁLISE DO CURTA-METRAGEM "ILHA DAS FLORES"

Para ver este filme na íntegra, acesse o link abaixo:
http://www.portacurtas.com.br/filme_abre_pop.asp?
Para maiores informações sobre o filme, acesse o link da produtora:
http://www.casacinepoa.com.br/port/
filmes/ilhadasf.htm
a história
A história de Ilha das Flores se dá,
à princípio, numa plantação de tomates
e tem como protagonista - pasmem vocês
- um tomate. É em torno do tomate que
o enredo da história gira, mostrando
os sucessivos personagens que vão se
relacionando com o mesmo e que dão uma
desenvoltura toda própria a história.
Ele é o elo de integração com os outros
personagens do drama e, por isso, ora
na sua versão madura, ora na sua versão
estragada, vai compondo um refrão que,
de repetição em repetição, dá uma cadência
melódica muito especial à narrativa.
Já o tom enciclopédico e pedagógico
com que a história é narrada em off
pelo ator Paulo José dá ao filme uma
certa atmosfera de documentário, quebrada
repetidas vezes por tiradas de ironia
e graça que vão subterraneamente se
transformando numa espécie de piada
inusitada e macabra, embalada por diversas
intervenções musicais inspiradas na
obra de Carlos Gomes O Guarani. E digo
piada inusitada e macabra porque este
lugar para onde o tomate do início da
história é levado para livremente apodrecer
e cheirar mal (visto que não serve de
alimento para a Dona Anete e a sua família
e nem para o porco e para a família
do porco, se tornando no entanto o alimento
de mulheres e crianças que não têm dinheiro
e nem dono) se chama Ilha das Flores:
uma lixeira a céu aberto numa ilha,
numa porção de terra à parte do continente,
onde a ordem natural das coisas se processa
de uma maneira completamente inversa
e quase que avulsa.
Literalmente, é disto que o filme trata:
da inversão de uma ordem natural, a
ponto dos seres humanos ficarem abaixo
dos porcos na prioridade da escolha
de alimentos. E, é claro, na escala
de vida. Afinal, já há pessoas que estão
vivendo pior do que os porcos.
a maneira como a história é contada
No entanto, o que mais impressiona o
espectador ao longo da projeção de todo
o filme é a maneira como ele é narrado
e contado: ao apresentar o personagem
1 e, na seqüência, o personagem 2, retoma-se
a menção do personagem inicialmente
apresentado e assim se prossegue indefinidamente
até o último personagem, sempre indo
adiante e apresentando um novo personagem
e depois retroagindo à série de personagens
que já foram apresentados, revelando
através deste jogo de construção & desconstrução
uma cadeia de relações e mostrando exatamente
qual o lugar de cada personagem dentro
desta cadeia - ou, senão isto, pelo
menos pontuando, através de um refrão
que soa inicialmente cômico, quais são
os personagens e quais são as relações
que se estabelecem entre eles e que,
no fim, formam um elo, uma grande engrenagem.
Se dizer que a maneira como o filme
é narrado é como um quebra-cabeça onde
há uma série de monta-e-desmonta, e
se dizer isto soa arbitrário dado que
não ocorre a todo o momento, prestemos
atenção pelo menos ao fato de que, a
cada vez que um personagem é apresentado,
mostra-se a série de relações que ele
mantém com outros que normalmente estão
a sua volta de modo que, ao apresentar
o personagem e a sua circunvizinhança
natural, o seu contorno, sempre se revela
a maneira como ele está atado ao personagem
seguinte e aos outros que vão aparecendo,
de modo que - o que sempre fica em evidência
- é o elo que os une e como eles participam
da engrenagem. Elo, cadeia, engrenagem:
estas talvez sejam palavras imprecisas,
mas que uso para aludir ao fato de que,
aos poucos, a própria montagem do filme
vai - junto com o enredo - construindo
um verdadeiro ecossistema das relações
que se estabelecem entre os fatores
e personagens apresentados.
Desse modo, o que torna este filme deveras
interessante é que a maneira como a
história é contada coincide com o próprio
assunto abordado, e isto de um modo
tão magistral que, juntos, forma e conteúdo,
se propõem a revelar e desvelar um mesmo
tema: o equilíbrio (ou desequilíbrio)
de um ecossistema. Aliás, esta é a tese
que pretendo defender: neste filme,
conteúdo & forma estão unidos de forma
tão indissolúvel que aquele assunto
do qual o argumento trata é o mesmo
que se reflete nas imagens utilizadas,
e vice-versa, de modo que o próprio
tratamento dado às imagens traduz o
assunto do qual se ocupa o argumento.
Um não vive sem o outro, e o outro não
vive sem o um: como os dois lados de
uma coisa comum - o que faz com que
a estrutura estética desta obra possa
ser chamada de especular. Afinal, o
que se reflete ali, se reflete lá, como
num jogo de luz casado e contínuo.
Ilha das Flores: símbolo do desequilíbrio
cósmico
Mas se as observações que faço soam
arbitrárias, e se o tema do equilíbrio
& desequilíbrio sistêmicos não estão
presentes tanto no roteiro quanto na
montagem, é de se considerar e perguntar
sobre uma imagem fundamental que se
torna recorrente ao longo do filme,
formando quase que um refrão: o planeta
Terra em movimento de rotação, girando
em torno do seu próprio eixo. Ela aparece
em vários momentos mas, sobretudo, segundos
antes da imagem de uma lente de microscópio
ser exibida, justamente no trecho em
que se mostra como as doenças "acabam
prejudicando o bom funcionamento dos
seres humanos", sendo que a forma circular
da lente do microscópio é superposta
a forma circular do nosso planeta Terra,
traçando assim um paralelo entre o macrocosmo
e o microcosmo e prefaciando aquilo
que acredito ser o tema do filme: o
equilíbrio cósmico. Ou o seu desequilíbrio.
Aliás, a forma circular é, por excelência,
o símbolo retomado ao longo de todo
o filme, sendo o movimento de rotação
da Terra somente uma de suas variantes.
Ele aparece, por exemplo:
no esquema traduzindo a proporção existente
entre a produção de tomates do Sr. Suzuki
e a produção brasileira que, por sua
vez, é medida dentro da escala da produção
mundial;
personificado pelo teleencéfalo humano,
dentro do qual várias imagens se processam,
como um caleidoscópio;
na maneira como o dinheiro e os vários
artefatos da produção humana vão se
conjugando e empilhando, revelando uma
grande espiral de imagens que acaba
sendo coroada no centro por um slogan
publicitário que anuncia: "Bruna, você
usa soutien com lycra?"
personificado no relógio que realiza
a contagem do tempo;
traduzida na maneira quase que enciclopédica
com que o filme é narrado ( kyklos =
círculo + paidos = educação, cultura),
circulando pelos assuntos mais variados;
na própria concepção de ilha, que é
definida como uma porção de terra cercada
de água por todos os lados.
No entanto, o que devemos considerar
é que a forma circular, e mais propriamente
o círculo, é o símbolo por excelência
da perfeição, da coisa inteira, tendo
sempre um centro e uma periferia, sendo
o seu centro invisível e o seu contorno
periférico a circunferência propriamente
dita. Esta invisibilidade do centro
sempre foi interpretada - pelas culturas
tradicionais - como o Princípio Maior
de onde tudo se origina, enquanto o
traçado da própria circunferência sempre
foi interpretado como a manifestação
variada e inesgotável do Princípio Maior,
e que caracteriza propriamente o Mundo.
Por isso, dentro da concepção simbólica
das culturas tradicionais, a circunferência
é o símbolo do mundo em sua imensa variedade
e multiplicidade, enquanto o seu centro
(invisível) é o símbolo de uma ordem
suprema de onde tudo se origina e para
onde tudo converte.
Por causa disso é que eu acredito que
a imagem do planeta girando pontua no
filme uma ordem em torno da qual tudo
deveria girar mas que, estando ausente,
permite justamente que a ordem natural
das coisas se inverta, o caos se estabeleça
e que existam lugares como Ilha das
Flores.
Mas que ordem faltante é esta? Esta
informação já está dada no próprio início
da película; aliás, antes mesmo que
a primeira imagem se apresente e que
é a de um globo girando. Neste trecho,
são exibidas três frases sobre um fundo
preto, cada uma por sua vez, e que acabam
dando à história uma outra conotação:
Primeira Frase: "Este não é um filme
de ficção".
Segunda Frase: "Existe um lugar chamado
Ilha das Flores".
Terceira Frase: "Deus não existe".
A ordem faltante é aquela que podemos
depreender desta terceira frase, e pela
tragédia do que ela significa mas que
talvez sequer atentamos à medida que
o filme vai prosseguindo: a ordem faltante
é Deus. É de cunho espiritual. E é pela
sua ausência que assistimos a tragédia
como a que acontece em Ilha das Flores.
Não seria, pois, Ilha das Flores um
filme que mostra como os fatores de
diversas ordens vão se interagindo dentro
de uma seqüência específica e que, na
ausência de um Fator Determinante, acaba
criando uma nova ordem, uma ordem avulsa
e à parte de todo o ecossistema, que
expressa a inversão de tudo e age como
uma doença?
Creio que sim. E se a mensagem é esta,
que ela sirva de alerta para o modo
como há séculos estamos dispondo das
nossas horas e distribuindo os nossos
afazeres ao longo desta jornada que,
no final das contas, se chama vida.
Afinal, mesmo que durante os créditos
finais apareçam frases que lembrem que
este filme, na verdade, foi feito por
Jorge Furtado, e que a última frase
do texto, na verdade, é do "Romanceiro
da Inconfidência" da Cecília Meireles,
e que os temas musicais, na verdade,
foram extraídos do "Guarani" de Carlos
Gomes, e que os personagens, na verdade,
são tais e tais atores, e que, na verdade,
a maior parte das locações foi rodada
na Ilha dos Marinheiros, a dois quilômetros
da Ilha das Flores - todo o restante
da obra ficcionada se configura como
sendo extremamente verdadeira, tal como
o final do filme anuncia: "o resto é
verdade".
É com esta frase que se fecha a exibição
do filme. Aliás, é também assim que
ele começa: lembram-se da frase inicial?
De que "este não é um filme de ficção".
E não é mesmo.
Ilha das Flores:
fruto de uma inteligência sistêmica
É notável como o curta-metragem Ilha
das Flores aborda o desequilíbrio social
em que estamos vivendo. Mais notável
ainda porque suas imagens estão dispostas
de um modo que remetem imediatamente
à idéia de encadeamento, de engrenagem,
demonstrando inclusive como todos os
fatores estão interligados entre si,
formando um circuito absolutamente fechado:
um todo cuja integridade depende exatamente
do jogo harmônico e equilibrado das
suas partes.
Essa noção do todo esquematizado e do
funcionamento equilibrado é a noção
mais evidente do filme - e é a noção
suprema do sujeito cuja inteligência
é de natureza sistêmica e orgânica.
Aliás, Ilha das Flores é um dos frutos
mais expressivos de uma inteligência
como esta.
Se assim for, e de acordo com a hipótese
das 12 Perspectivas Fundamentais apresentada
anteriormente num quadro, o mapa astrológico
do seu diretor deveria estar com a Casa
6 ocupada por um dos sete planetas tradicionais
- o que de fato acontece. Ao calcularmos
o seu mapa, vemos que o planeta Saturno
se encontra posicionado dentro da Casa
6, demonstrando assim a relação existente
entre uma configuração astrológica,
um tipo de inteligência e uma obra cinematográfica
que é a sua mais pura expressão. Vemos,
assim, a relação existente entre astros
e psique, intermediada e comprovada
através de uma obra artística.
No mais, o fato de Saturno ser o planeta
a aparecer dentro da Casa 6 não é nem
um pouco surpreendente e assustador:
afinal, para o filósofo árabe Mohieddin
Ibn' Árabi, este planeta está associado
a razão humana, àquela necessidade de
se encontrar um sentido, uma resposta,
um entendimento para determinada ordem
de experiência. Se levarmos em consideração
a tese deste filósofo, teríamos que
admitir, mesmo à título de hipótese,
que o indivíduo que nascesse com o planeta
Saturno localizado dentro da Casa 6
procuraria uma razão para o Todo e para
o seu funcionamento equilibrado. Mas
não é justamente isso que Ilha das Flores
revela e testemunha?
Essa característica, no entanto, se
revela também em outras obras suas.
Por ocasião do lançamento do seu novo
filme O Homem Que Copiava, a revista
Época divulgou em junho de 2003 a seguinte
manchete:
JUNTANDO OS PEDAÇOS
O excelente "O Homem Que Copiava" aposta
nas simulações para organizar o quebra-cabeça
da vida
ESTILHAÇOS
Lázaro Ramos faz o jovem que, tirando
fotocópias, vê o mundo em fragmentos
O próprio diretor Jorge Furtado, em
entrevista à Agência Carta Maior, em
dezembro de 2003, dá o seguinte depoimento:
"Então, o objetivo era fazer algo sobre
fragmentação, com um personagem muito
fragmentado. (...) Olha, o Ilha das
Flores já é, de alguma maneira, uma
tentativa de fazer-se um hipertexto,
né? Ele é um hipertexto, antes da Internet,
pelo menos da Internet para mim. Era
a idéia de que um texto leva a outro
texto, uma palavra leva a outra palavra
e, no final, as coisas acabavam concretizando-se
em uma grande rede. Esta era a idéia
do Ilha. E O Homem que Copiava é um
pouco isso também (...). Eu, agora,
me sinto atraído pelo contrário dessa
lógica, em todos os sentidos. É a "unidade",
em oposição à fragmentação".
A uma série de outros depoimentos que
se seguem, o entrevistador desta revista,
Cláudio Szynkier, comenta:
"Isso mostra como o filme constrói-se
e molda-se organicamente. Os significados
que ele vai adquirindo nascem dentro
dele mesmo, às vezes sem ter nada a
ver com o que foi planejado".
"A descrição inicial que André faz das
coisas que cercam o seu mundo sublinha
o componente autoral presente no filme.
É uma obsessão pela anatomia da realidade,
pela dinâmica e influência dos objetos
no viver diário do personagem. O dinheiro,
quanto ganha, quanto vai sobrar, quanto
falta, o que foi possível comprar, quanto
tempo necessitaria para comprar aquilo
que não foi possível; a copiadora, o
que a máquina faz, o chefe, a gostosa;
o quarto da menina. Se Ilha das Flores
aplicava uma tentativa de "biologia",
que compreendia relações humanas e até
coisas inanimadas, em O Homem que Copiava
o que percebemos é uma intimista análise
dos vetores da vida cotidiana de alguém.
Mas, nos dois casos, há o apreço pelo
ato de esmiuçar, compor a lógica dos
'mundos' ".
Não são estes, pois, comentários e depoimentos
que testemunham justamente o foco e
a direção de uma inteligência que insiste
em ver e analisar o mundo de maneira
sistêmica e orgânica?
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Mas isto já é assunto para um outro artigo a ser realizado num futuro, que poderia explicar inclusive a pesquisa feita pelo estudante de física da Universidade da Califórnia Shawn Carlson que foi publicada na Revista Nature em 1985 – outra pesquisa da qual surgiram deduções equivocadas.
Edil Carvalho
17/02/2002
NOTAS
ANÁLISE
ESTRUTURAL DA NARRATIVA, de Roland Barthes
e outros. Ed. Vozes, 1976.
DE LA CULTURA Y SUS ARTIFICES, de Honório
Delgado. Ed. Aguilar, Espanha. 1961.
FUTUHAT MAKKIYYA, obra original do filósofo,
sendo organizada e traduzida por Pablo
Beneito, faculdade de Múrcia, Espanha.
DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, de
Gordon W. Allport, Ed. Herder, 1970.
TYPES OF MAN, de E. Spranger. Ed. Halle,
Niemeyer, 1928.
LE DIAGNOSTIC DU CARACTÉRE, de Ludwig
Klages. Puf, Bibliotheque Scientifique
Internationale, 1949. se mobiliza tanto
intelectualmente quanto afetivamente
ou volitivamente, dependendo da natureza
do planeta astrológico aí localizado.
Sol, lua, mercúrio, Vênus, marte, júpiter
e saturno.