EDIL CARVALHO
edil.carvalho@uol.com.br

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ASTROLOGIA E CINEMA - UMA COSMOVISÃO

 

Introdução

As observações que se seguem fazem parte do curso ASTROLOGIA & CINEMA: UMA COSMOVISÃO, e visam demonstrar uma hipótese que à primeira vista pode soar tão incompreensível quanto surpreendente: de que os astros determinam a nossa visão de vida, ou seja, a maneira muito particular como cada um de nós vê e aborda o mundo.

Para demonstrar tal hipótese, nada melhor do que analisar filmes de cinema - justamente porque esta forma de expressão é considerada "a arte da visão" por excelência. Através desta análise, será possível perceber que cada cineasta tem um modo de ver muito característico que não só se repete ao longo de sua filmografia mas que também se manifesta no modo como vive, em sua biografia - e que este "modo de ver o mundo" é de natureza astrológica.

Aliás, para a Semiótica , toda obra artística tem uma estrutura interna que a sustenta e edifica. Já para a Biografia , toda vida humana tem um script que lhe dá uma desenvoltura bastante característica. Por incrível que pareça, vida & obra configuram um certo padrão através do qual o artista - o ser humano - pode ser reconhecido.

A tese lançada por este trabalho é exatamente esta: de que este padrão, tanto estético quanto biográfico, pode ser diagnosticado pela Astrologia, e isto se ela for considerada em seu aspecto cognitivo, tal como a obra do grande filósofo árabe Mohieddin Ibn' Árabi já deixava entrever em pleno século XIII, e para quem os planetas celestes representavam certas "potências da alma". Neste sentido, a Astrologia se torna o elo, o pano de fundo comum e intermediário entre a Arte e a Vida. entendendo a personalidade humana: a constelação de valores pessoais

Para Gordon W. Allport , um dos nomes mais conhecidos da Psicologia contemporânea, o homem, no decorrer da sua evolução, e confrontado com um número cada vez maior de solicitações, se viu forçado a desenvolver um sentido discriminatório da importância das mesmas. Ou melhor: os problemas impostos pela vida sempre exigiram que o homem escolhesse, levando-o a conferir um sentido de importância maior a algumas experiências e a relegar as outras a uma posição secundária.

Para Allport esta eleição hierárquica ocorre porque há experiências que são centrais para o sentido de existência do sujeito; experiências, estas, que concorrem para o desenvolvimento do seu sentido de identidade. Ao se tornar adulta, a criança deixa de se identificar somente com os seus pais e passa a procurar referências nos grupos, na nação e, num grau último, em certos valores e ideais. Num certo sentido, ela descobre que há valores com que se preocupa profundamente e que a sua personalidade reflete e encarna.

Por isso é que, para ele, os ideais e os valores exercem um papel tão fundamental no desenvolvimento psicológico: são eles que determinam a quê o individuo vai subordinar livremente a sua vida, traçando um esboço daquilo que pode ser chamado de "projeto vital". Aliás, o próprio Allport emprega um termo da filosofia medieval para lembrar que há uma "intencionalidade" movendo a vida humana - e que esta intencionalidade representa justamente a forma muito particular como alguém se dirige para o futuro. Essas amplas disposições intencionais só podem apontar para um futuro, e determinam por isso mesmo os traços mais marcantes da personalidade de um sujeito - os traços que justamente lhe dão forma.

Por isso é que, para Allport, a personalidade humana só se firma e desabrocha quando se mantém fiel a uma hierarquia de interesses. E é por isso que só se conhece alguém quando se conhece a sua "ordo amoris": as aspirações que o sujeito nutre com relação a si mesmo, a sua auto-imagem ideal. É ela quem traça uma linha pela qual o indivíduo se orienta e escreve a sua própria história. Aliás, uma grande parte do desenvolvimento psicológico só se realiza por causa desta auto-imagem: é ela quem nos auxilia a combinar nossa visão do presente com nossa visão de futuro. É ela quem define na maioria das vezes uma ambição profunda e sadia e, por isso mesmo, pode ser tomada como um "mapa cognitivo compreensivo" da personalidade individual.

Desse modo, para se compreender uma personalidade humana, basta que prestemos atenção nas direções principais do seu esforço ao longo de toda a sua vida, por maiores que sejam as tensões que daí advenham. Basta que consideremos a constelação de valores em torno do qual a vida do sujeito orbita ou, como já defendia Spranger , o sistema de valores que o sujeito encarna. São estes valores que conferem uma marca muito própria à personalidade e submetem a vitalidade psicológica a uma rede de significados, selecionando e inibindo motivações de outras ordens.

O que no entanto, impressiona este notável pesquisador é que estes valores não são infinitos em número - e que por isso mesmo os profissionais que trabalham com psicodiagnósticos deveriam desenvolver um teste que permitisse detectar essas unidades mais compreensivas da personalidade.

Que teste poderia ser este? Se não estiver enganado em minhas análises, creio que o mapa astrológico cumpre exatamente esta função: o de diagnosticar a constelação de valores fundamentais em torno da qual a vida de cada pessoa orbita, fazendo justamente com que uma se diferencie da outra.


entendendo a personalidade humana: as direções da atenção

Para Ludwig Klages , que elevou os estudos tipológicos à categoria de ciência, ao se tentar definir e descrever um indivíduo, deve-se perceber como ele se manifesta e reage às circunstâncias e, desse jogo de ações e reações, deve-se notar sobretudo os seus comportamentos mais constantes - a que ele dá o nome de caráter.

Esta definição está baseada na etimologia da própria palavra que, em grego (charassein) designa o ato de marcar, cunhar e, por conseqüência, as marcas, os traços e as propriedades mais características de um ser, que o distinguem dos demais. Aliás, a palavra chassi é derivada deste vocábulo e, como sabemos, o chassi de um carro traz gravado em si um número que lhe é próprio e distintivo.

Para Klages, o caráter é a base da personalidade e revela a sua condição natural e inerente, sobre a qual incidem todas as outras influências, sejam elas sociais e até mesmo psicológicas. Se o indivíduo pode ser considerado como uma "tabula rasa" sobre a qual a vida se escreve e tal como uma vertente da psicologia da época costumava defender, para Klages, cada indivíduo - cada "tabula rasa" - era composta de uma matéria diferente e por isso, caso fosse de pedra ou de argila ou de vidro ou de papel sofreria diferentemente a cada influência recebida. O caráter, para ele, era a matéria básica da personalidade.

No entanto, a dificuldade em compreender esta camada da personalidade e de levar adiante os estudos sobre a diferença e a singularidade humana se deu por conta de uma confusão cometida ao longo da história da psicologia: os instintos (triebe) foram confundidos de tal modo com os interesses (triebfedem) que se tornou praticamente impossível compreender o jogo dialético que estas duas forças impõem uma à outra e, sobretudo, o papel de cada uma no desenvolvimento psicológico e na construção da personalidade - sobretudo o papel dos interesses, que determinam as direções da vontade individual.

Esta observação de Klages coincide com uma das críticas mais ácidas que o próprio Allport fez a psicologia corrente pois, para este, a grande maioria dos estados da mente só pode ser adequadamente descrita em termos de futuridade, ou seja, ao se entender a grade de interesses e de valores que move um ser humano. Mas para isso seria necessário desenvolver um tipo de abordagem psicológica que transcendesse a tendência que ainda hoje prevalece de explicar o homem única e exclusivamente em função do seu passado, visto que o futuro também move e determina o ser humano.

Por isso é que, para Klages, o caráter é definido como "uma unidade viva, ou a qualidade distintiva essencial de uma alma individual. Afinal, todo homem é dotado de uma alma mas possui, além disso, um espírito, quer dizer: ele é um eu ou um si. (...) Por isso, num sentido muito específico, o caráter é a qualidade da vontade pessoal, assinalando condições constantes que revelam uma certa direção preferencial de um eu ou de uma consciência - o que determina, portanto, entre outras coisas, as metas às quais alguém se sente impelido".

Vemos, assim que, para este notável pesquisador, o que distingue um ser humano do outro é a direção preferencial da sua atenção que, em outras palavras, quer dizer: aquilo a que alguém presta atenção e olha.

Klages, aliás, tem uma maneira muito interessante para provar que cada indivíduo se diferencia de outro por conta deste olhar, desta atenção, desta grade de valores específica. Ele diz: se um indivíduo pode ser considerado honesto, que motivos e razões ele teria para proceder como tal? Para Klages, há sujeitos que são honestos justamente porque querem passar a melhor imagem de si mesmos, enquanto há outros que assim agem por receio do código penal. Desse modo, ele tenta demonstrar que por detrás de uma mesma característica e de um mesmo comportamento - a honestidade, por exemplo - há um valor que os distingue. Há, por detrás dos comportamentos, todo um olhar, toda uma atenção voltada e roubada por este ou aquele valor.

E, da mesma maneira que as constelações celestes sempre serviram e ainda servem de guia para orientar os navegadores, quem sabe elas prefigurem - de uma maneira surpreendente e inexplicável - esta constelações de valores que nos move ao longo de toda nossa existência.


a Astrologia e as 12 direções da atenção:

O sistema astrológico sempre foi considerado uma espécie de catálogo onde o ser humano foi registrando e depositando, ao longo dos séculos, todas as experiências que lhe eram mais recorrentes e fundamentais. E se analisarmos mais de perto um dos componentes deste sistema - o sistema das Casas Astrológicas - perceberemos que ele descreve exatamente a perspectiva que se abre entre o sujeito nascido e o mundo em torno, isto é, entre um posto de observação e a esfera celeste, demarcando por isto mesmo um campo de atenção.

Por isso, se há alguma estrutura do mapa astrológico que possa descrever e diagnosticar os diferentes campos da atenção humana, esta seria exatamente aquela de que se compõe o sistema das Casas Astrológicas. É ela quem descreveria os possíveis campos da atenção individual, ou melhor, as perspectivas humanas fundamentais, através das quais tudo seria percebido, sentido e até mesmo alterado.

Mas... que perspectivas fundamentais seriam estas, através das quais cada indivíduo, a sua maneira, procuraria ver o mundo e se orientar?

Casa 1
sob a perspectiva da identidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PERSONALÍSTICO
se mobiliza pela imagem que tudo passa e projeta
Casa 2
sob a perspectiva da vitalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SENSORIAL
se mobiliza pelo aspecto físico e material das coisas
Casa 3
sob a perspectiva da comunicabilidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS LINGÜÍSTICO
se mobiliza pelas idéias explicitadas e ainda implícitas
Casa 4
sob a perspectiva da interioridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS EMOCIONAL
se mobiliza pelas exigências e pressões emocionais
Casa 5
sob a perspectiva da capacidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS VOCACIONAL
se mobiliza pelo desempenho e méritos próprios
Casa 6
sob a perspectiva da organicidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SISTÊMICO
se mobiliza pelo todo esquematizado e o seu funcionamento equilibrado
Casa 7
sob a perspectiva da alteridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS INTERPESSOAL
se mobiliza pela reciprocidade e pelos diversos níveis de relacionamento
Casa 8
sob a perspectiva da adversidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS TRANSFORMADOR
se mobiliza por processos que gerem mudanças e alterações
Casa 9
sob a perspectiva da universalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS LEGISLATIVO
se mobiliza por princípios e regras gerais que gerem certezas e orientem
Casa 10
sob a perspectiva da coletividade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SOCIAL
se mobiliza pelas exigências e pressões sociais
Casa 11
sob a perspectiva da posteridade
caracteriza o indivíduo de VIÉS PROJETIVO
se mobiliza pelas perspectivas futuras e pelo projeto a realizar
Casa 12
sob a perspectiva da finalidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS MACROSCÓPICO
se mobiliza por forças maiores que determinam o fim e o rumo de tudo

Estas perspectivas se tornariam determinantes para cada indivíduo à medida que um dos sete planetas da Astrologia Tradicional estivesse disposto numa destas Casas do seu mapa natal, configurando assim os focos naturais da sua atenção e conferindo um sentido de importância maior a estas experiências - e não as outras, representadas pelas Casas que se encontrassem vazias.

No entanto, para que esta hipótese seja analisada e demonstrada, nada melhor do que avaliar filmes de cinema feitos por diretores com obra de cunho autoral, verificando em que medida ela se mostra marcada por certo tema - revelando, assim, uma direção preferencial da sua atenção.

É o que pretendo demonstrar agora com a análise do filme que se segue abaixo.

 

 

ANÁLISE DO CURTA-METRAGEM "ILHA DAS FLORES"

 


Jorge Furtado - 1989

Para ver este filme na íntegra, acesse o link abaixo:
http://www.portacurtas.com.br/filme_abre_pop.asp?
Para maiores informações sobre o filme, acesse o link da produtora:
http://www.casacinepoa.com.br/port/
filmes/ilhadasf.htm

 

a história

A história de Ilha das Flores se dá, à princípio, numa plantação de tomates e tem como protagonista - pasmem vocês - um tomate. É em torno do tomate que o enredo da história gira, mostrando os sucessivos personagens que vão se relacionando com o mesmo e que dão uma desenvoltura toda própria a história. Ele é o elo de integração com os outros personagens do drama e, por isso, ora na sua versão madura, ora na sua versão estragada, vai compondo um refrão que, de repetição em repetição, dá uma cadência melódica muito especial à narrativa.

Já o tom enciclopédico e pedagógico com que a história é narrada em off pelo ator Paulo José dá ao filme uma certa atmosfera de documentário, quebrada repetidas vezes por tiradas de ironia e graça que vão subterraneamente se transformando numa espécie de piada inusitada e macabra, embalada por diversas intervenções musicais inspiradas na obra de Carlos Gomes O Guarani. E digo piada inusitada e macabra porque este lugar para onde o tomate do início da história é levado para livremente apodrecer e cheirar mal (visto que não serve de alimento para a Dona Anete e a sua família e nem para o porco e para a família do porco, se tornando no entanto o alimento de mulheres e crianças que não têm dinheiro e nem dono) se chama Ilha das Flores: uma lixeira a céu aberto numa ilha, numa porção de terra à parte do continente, onde a ordem natural das coisas se processa de uma maneira completamente inversa e quase que avulsa.

Literalmente, é disto que o filme trata: da inversão de uma ordem natural, a ponto dos seres humanos ficarem abaixo dos porcos na prioridade da escolha de alimentos. E, é claro, na escala de vida. Afinal, já há pessoas que estão vivendo pior do que os porcos.


a maneira como a história é contada

No entanto, o que mais impressiona o espectador ao longo da projeção de todo o filme é a maneira como ele é narrado e contado: ao apresentar o personagem 1 e, na seqüência, o personagem 2, retoma-se a menção do personagem inicialmente apresentado e assim se prossegue indefinidamente até o último personagem, sempre indo adiante e apresentando um novo personagem e depois retroagindo à série de personagens que já foram apresentados, revelando através deste jogo de construção & desconstrução uma cadeia de relações e mostrando exatamente qual o lugar de cada personagem dentro desta cadeia - ou, senão isto, pelo menos pontuando, através de um refrão que soa inicialmente cômico, quais são os personagens e quais são as relações que se estabelecem entre eles e que, no fim, formam um elo, uma grande engrenagem.

Se dizer que a maneira como o filme é narrado é como um quebra-cabeça onde há uma série de monta-e-desmonta, e se dizer isto soa arbitrário dado que não ocorre a todo o momento, prestemos atenção pelo menos ao fato de que, a cada vez que um personagem é apresentado, mostra-se a série de relações que ele mantém com outros que normalmente estão a sua volta de modo que, ao apresentar o personagem e a sua circunvizinhança natural, o seu contorno, sempre se revela a maneira como ele está atado ao personagem seguinte e aos outros que vão aparecendo, de modo que - o que sempre fica em evidência - é o elo que os une e como eles participam da engrenagem. Elo, cadeia, engrenagem: estas talvez sejam palavras imprecisas, mas que uso para aludir ao fato de que, aos poucos, a própria montagem do filme vai - junto com o enredo - construindo um verdadeiro ecossistema das relações que se estabelecem entre os fatores e personagens apresentados.

Desse modo, o que torna este filme deveras interessante é que a maneira como a história é contada coincide com o próprio assunto abordado, e isto de um modo tão magistral que, juntos, forma e conteúdo, se propõem a revelar e desvelar um mesmo tema: o equilíbrio (ou desequilíbrio) de um ecossistema. Aliás, esta é a tese que pretendo defender: neste filme, conteúdo & forma estão unidos de forma tão indissolúvel que aquele assunto do qual o argumento trata é o mesmo que se reflete nas imagens utilizadas, e vice-versa, de modo que o próprio tratamento dado às imagens traduz o assunto do qual se ocupa o argumento. Um não vive sem o outro, e o outro não vive sem o um: como os dois lados de uma coisa comum - o que faz com que a estrutura estética desta obra possa ser chamada de especular. Afinal, o que se reflete ali, se reflete lá, como num jogo de luz casado e contínuo.


Ilha das Flores: símbolo do desequilíbrio cósmico

Mas se as observações que faço soam arbitrárias, e se o tema do equilíbrio & desequilíbrio sistêmicos não estão presentes tanto no roteiro quanto na montagem, é de se considerar e perguntar sobre uma imagem fundamental que se torna recorrente ao longo do filme, formando quase que um refrão: o planeta Terra em movimento de rotação, girando em torno do seu próprio eixo. Ela aparece em vários momentos mas, sobretudo, segundos antes da imagem de uma lente de microscópio ser exibida, justamente no trecho em que se mostra como as doenças "acabam prejudicando o bom funcionamento dos seres humanos", sendo que a forma circular da lente do microscópio é superposta a forma circular do nosso planeta Terra, traçando assim um paralelo entre o macrocosmo e o microcosmo e prefaciando aquilo que acredito ser o tema do filme: o equilíbrio cósmico. Ou o seu desequilíbrio.

Aliás, a forma circular é, por excelência, o símbolo retomado ao longo de todo o filme, sendo o movimento de rotação da Terra somente uma de suas variantes. Ele aparece, por exemplo:

no esquema traduzindo a proporção existente entre a produção de tomates do Sr. Suzuki e a produção brasileira que, por sua vez, é medida dentro da escala da produção mundial;


personificado pelo teleencéfalo humano, dentro do qual várias imagens se processam, como um caleidoscópio;

na maneira como o dinheiro e os vários artefatos da produção humana vão se conjugando e empilhando, revelando uma grande espiral de imagens que acaba sendo coroada no centro por um slogan publicitário que anuncia: "Bruna, você usa soutien com lycra?"

personificado no relógio que realiza a contagem do tempo;

traduzida na maneira quase que enciclopédica com que o filme é narrado ( kyklos = círculo + paidos = educação, cultura), circulando pelos assuntos mais variados;

na própria concepção de ilha, que é definida como uma porção de terra cercada de água por todos os lados.

No entanto, o que devemos considerar é que a forma circular, e mais propriamente o círculo, é o símbolo por excelência da perfeição, da coisa inteira, tendo sempre um centro e uma periferia, sendo o seu centro invisível e o seu contorno periférico a circunferência propriamente dita. Esta invisibilidade do centro sempre foi interpretada - pelas culturas tradicionais - como o Princípio Maior de onde tudo se origina, enquanto o traçado da própria circunferência sempre foi interpretado como a manifestação variada e inesgotável do Princípio Maior, e que caracteriza propriamente o Mundo. Por isso, dentro da concepção simbólica das culturas tradicionais, a circunferência é o símbolo do mundo em sua imensa variedade e multiplicidade, enquanto o seu centro (invisível) é o símbolo de uma ordem suprema de onde tudo se origina e para onde tudo converte.

Por causa disso é que eu acredito que a imagem do planeta girando pontua no filme uma ordem em torno da qual tudo deveria girar mas que, estando ausente, permite justamente que a ordem natural das coisas se inverta, o caos se estabeleça e que existam lugares como Ilha das Flores.

Mas que ordem faltante é esta? Esta informação já está dada no próprio início da película; aliás, antes mesmo que a primeira imagem se apresente e que é a de um globo girando. Neste trecho, são exibidas três frases sobre um fundo preto, cada uma por sua vez, e que acabam dando à história uma outra conotação:

Primeira Frase: "Este não é um filme de ficção".
Segunda Frase: "Existe um lugar chamado Ilha das Flores".
Terceira Frase: "Deus não existe".

A ordem faltante é aquela que podemos depreender desta terceira frase, e pela tragédia do que ela significa mas que talvez sequer atentamos à medida que o filme vai prosseguindo: a ordem faltante é Deus. É de cunho espiritual. E é pela sua ausência que assistimos a tragédia como a que acontece em Ilha das Flores. Não seria, pois, Ilha das Flores um filme que mostra como os fatores de diversas ordens vão se interagindo dentro de uma seqüência específica e que, na ausência de um Fator Determinante, acaba criando uma nova ordem, uma ordem avulsa e à parte de todo o ecossistema, que expressa a inversão de tudo e age como uma doença?

Creio que sim. E se a mensagem é esta, que ela sirva de alerta para o modo como há séculos estamos dispondo das nossas horas e distribuindo os nossos afazeres ao longo desta jornada que, no final das contas, se chama vida. Afinal, mesmo que durante os créditos finais apareçam frases que lembrem que este filme, na verdade, foi feito por Jorge Furtado, e que a última frase do texto, na verdade, é do "Romanceiro da Inconfidência" da Cecília Meireles, e que os temas musicais, na verdade, foram extraídos do "Guarani" de Carlos Gomes, e que os personagens, na verdade, são tais e tais atores, e que, na verdade, a maior parte das locações foi rodada na Ilha dos Marinheiros, a dois quilômetros da Ilha das Flores - todo o restante da obra ficcionada se configura como sendo extremamente verdadeira, tal como o final do filme anuncia: "o resto é verdade".

É com esta frase que se fecha a exibição do filme. Aliás, é também assim que ele começa: lembram-se da frase inicial? De que "este não é um filme de ficção".

E não é mesmo.


Ilha das Flores:


fruto de uma inteligência sistêmica É notável como o curta-metragem Ilha das Flores aborda o desequilíbrio social em que estamos vivendo. Mais notável ainda porque suas imagens estão dispostas de um modo que remetem imediatamente à idéia de encadeamento, de engrenagem, demonstrando inclusive como todos os fatores estão interligados entre si, formando um circuito absolutamente fechado: um todo cuja integridade depende exatamente do jogo harmônico e equilibrado das suas partes.

Essa noção do todo esquematizado e do funcionamento equilibrado é a noção mais evidente do filme - e é a noção suprema do sujeito cuja inteligência é de natureza sistêmica e orgânica. Aliás, Ilha das Flores é um dos frutos mais expressivos de uma inteligência como esta.

Se assim for, e de acordo com a hipótese das 12 Perspectivas Fundamentais apresentada anteriormente num quadro, o mapa astrológico do seu diretor deveria estar com a Casa 6 ocupada por um dos sete planetas tradicionais - o que de fato acontece. Ao calcularmos o seu mapa, vemos que o planeta Saturno se encontra posicionado dentro da Casa 6, demonstrando assim a relação existente entre uma configuração astrológica, um tipo de inteligência e uma obra cinematográfica que é a sua mais pura expressão. Vemos, assim, a relação existente entre astros e psique, intermediada e comprovada através de uma obra artística.

No mais, o fato de Saturno ser o planeta a aparecer dentro da Casa 6 não é nem um pouco surpreendente e assustador: afinal, para o filósofo árabe Mohieddin Ibn' Árabi, este planeta está associado a razão humana, àquela necessidade de se encontrar um sentido, uma resposta, um entendimento para determinada ordem de experiência. Se levarmos em consideração a tese deste filósofo, teríamos que admitir, mesmo à título de hipótese, que o indivíduo que nascesse com o planeta Saturno localizado dentro da Casa 6 procuraria uma razão para o Todo e para o seu funcionamento equilibrado. Mas não é justamente isso que Ilha das Flores revela e testemunha?

Essa característica, no entanto, se revela também em outras obras suas. Por ocasião do lançamento do seu novo filme O Homem Que Copiava, a revista Época divulgou em junho de 2003 a seguinte manchete:

JUNTANDO OS PEDAÇOS
O excelente "O Homem Que Copiava" aposta nas simulações para organizar o quebra-cabeça da vida

ESTILHAÇOS
Lázaro Ramos faz o jovem que, tirando fotocópias, vê o mundo em fragmentos

O próprio diretor Jorge Furtado, em entrevista à Agência Carta Maior, em dezembro de 2003, dá o seguinte depoimento:

"Então, o objetivo era fazer algo sobre fragmentação, com um personagem muito fragmentado. (...) Olha, o Ilha das Flores já é, de alguma maneira, uma tentativa de fazer-se um hipertexto, né? Ele é um hipertexto, antes da Internet, pelo menos da Internet para mim. Era a idéia de que um texto leva a outro texto, uma palavra leva a outra palavra e, no final, as coisas acabavam concretizando-se em uma grande rede. Esta era a idéia do Ilha. E O Homem que Copiava é um pouco isso também (...). Eu, agora, me sinto atraído pelo contrário dessa lógica, em todos os sentidos. É a "unidade", em oposição à fragmentação".

A uma série de outros depoimentos que se seguem, o entrevistador desta revista, Cláudio Szynkier, comenta:

"Isso mostra como o filme constrói-se e molda-se organicamente. Os significados que ele vai adquirindo nascem dentro dele mesmo, às vezes sem ter nada a ver com o que foi planejado".

"A descrição inicial que André faz das coisas que cercam o seu mundo sublinha o componente autoral presente no filme. É uma obsessão pela anatomia da realidade, pela dinâmica e influência dos objetos no viver diário do personagem. O dinheiro, quanto ganha, quanto vai sobrar, quanto falta, o que foi possível comprar, quanto tempo necessitaria para comprar aquilo que não foi possível; a copiadora, o que a máquina faz, o chefe, a gostosa; o quarto da menina. Se Ilha das Flores aplicava uma tentativa de "biologia", que compreendia relações humanas e até coisas inanimadas, em O Homem que Copiava o que percebemos é uma intimista análise dos vetores da vida cotidiana de alguém. Mas, nos dois casos, há o apreço pelo ato de esmiuçar, compor a lógica dos 'mundos' ".

Não são estes, pois, comentários e depoimentos que testemunham justamente o foco e a direção de uma inteligência que insiste em ver e analisar o mundo de maneira sistêmica e orgânica?

Casa 6
sob a perspectiva da organicidade
caracteriza o indivíduo de VIÉS SISTÊMICO
se mobiliza pelo todo esquematizado e o seu funcionamento equilibrado

Mas isto já é assunto para um outro artigo a ser realizado num futuro, que poderia explicar inclusive a pesquisa feita pelo estudante de física da Universidade da Califórnia Shawn Carlson que foi publicada na Revista Nature em 1985 – outra pesquisa da qual surgiram deduções equivocadas.

Edil Carvalho
17/02/2002

 

TOPO

NOTAS

ANÁLISE ESTRUTURAL DA NARRATIVA, de Roland Barthes e outros. Ed. Vozes, 1976.
DE LA CULTURA Y SUS ARTIFICES, de Honório Delgado. Ed. Aguilar, Espanha. 1961.
FUTUHAT MAKKIYYA, obra original do filósofo, sendo organizada e traduzida por Pablo Beneito, faculdade de Múrcia, Espanha.
DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, de Gordon W. Allport, Ed. Herder, 1970.
TYPES OF MAN, de E. Spranger. Ed. Halle, Niemeyer, 1928.
LE DIAGNOSTIC DU CARACTÉRE, de Ludwig Klages. Puf, Bibliotheque Scientifique Internationale, 1949. se mobiliza tanto intelectualmente quanto afetivamente ou volitivamente, dependendo da natureza do planeta astrológico aí localizado. Sol, lua, mercúrio, Vênus, marte, júpiter e saturno.