EDIL CARVALHO
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ASTROLOGIA & CIÊNCIA
Casamento impossível ou grande parentesco?
(ou o lugar da astrologia na cultura humana)
Introdução
Deus inventou e nos deu a visão para
que, contemplando as revoluções celestes,
pudéssemos aplicá-las sobre as revoluções
dos nossos pensamentos que, apesar de
desordenadas, são parentes das revoluções
imperturbáveis do céu, dos movimentos
periódicos e regulares da inteligência
divina. Desse modo, ao estudar a fundo
os movimentos celestes e exercer a retidão
natural do raciocínio, estaríamos imitando
os movimentos absolutamente invariáveis
da divindade, ordenando através destes
os nossos próprios pensamentos que,
deixados a si mesmos, estão sujeitos
à aberração.
PLATÃO (428 –347 AC)
Resulta de novo que nós temos por bem
definir a Razão como a filha adulta
e completa da natureza, ver como uma
espécie de segunda natureza, contempladora
da primeira e que, à imitação da primeira
natureza, reproduz todas as coisas em
seu seio e governa-as todas sabiamente
– substituindo as forças de sua mãe.
Nós definimos também a Razão como aquela
força pela qual a mãe natureza volta
a si, pela qual se fecha o círculo de
toda Natureza, força pela qual a Natureza
é restituída a si mesma.
BOVILLUS (1470-1553)
Não há nenhum conhecimento preciso de
todas as obras de Deus, a não ser n’Ele,
que as cria, e, se nós temos qualquer
conhecimento delas, nós o tiramos do
símbolo e do espelho bem conhecido da
matemática (...). Portanto, se considerarmos
corretamente, então, não temos nada
de certo na nossa ciência senão a nossa
matemática e ela é nosso símbolo para
ir à caça das obras de Deus.
NICOLAU DE CUSA (1401-1464)
A filosofia está escrita no grande livro
da natureza, que está aberto o tempo
todo diante dos nossos olhos, mas que
ninguém pode ler, a menos que tenho
aprendido anteriormente a entender os
caracteres com os quais ele está escrito,
quer dizer, as figuras da matemática
e seu vínculo necessário.
GALILEU GALILEI (1564-1642)
A antiga divisão do universo num desenvolvimento
objetivo no espaço e no tempo, por um
lado, e numa alma que reflete esse desenvolvimento,
por outro, já não serve para ponto de
partida caso se queira compreender as
ciências modernas da natureza. É, antes
de tudo, a rede de interligações entre
o homem e a natureza o objetivo central
da ciência.
WERNER HEISENBERG (1901-1976)
Ao longo dos séculos, o ser humano sempre
tentou compreender melhor a si mesmo
e o mundo que o cerca, e cada época
da história ficou caracterizada por
elaborar este entendimento de um modo
muito particular. Cada época, a seu
modo, teve o que chamamos de cosmovisão:
um modo muito próprio de compreender
não só o Homem e a Natureza
mas também a
Entender como o ser humano foi elaborando
ao longo do tempo estas 3 noções se
torna pois fundamental não só para compreender
a sua vasta produção cultural (que engloba
desde a Arte, a Ciência, a Religião
e a Filosofia), como também para diagnosticar
um fio condutor que possa desembolar
o complexo novelo no qual se transformou
a experiência do conhecimento humano.
Desse modo, entender as sucessivas cosmovisões
históricas pode se tornar uma chave
para compreender a imensa confusão tanto
intelectual quanto espiritual no qual
o homem mergulhou.
Para isto, seria necessário entender
a cosmologia de cada época, ou
seja, o modo como cada época acreditava
que o Cosmos estava estruturado e organizado
e como a dimensão natural, humana e
espiritual se relacionavam entre si.
Estudar cosmologia é, pois, uma maneira
de compreender como cada época interpretava
a vida e o mundo ao seu redor.
Mas, para quem pretende entender as
possíveis relações entre Astrologia
e Ciência, torna-se necessário estudar
o período que une o final da Idade Média
com o início do Renascimento – período
em que não só o modo de compreender
o mundo se alterou substancialmente
como também foi o período onde se plantaram
as primeiras sementes daquilo que, séculos
depois, viria a configurar a Ciência
Moderna. Ademais, porque foi neste período
que a Astrologia se encontrava no cerne
dos debates mais acalorados que foram
empreendidos por autores consagrados
- intelectuais do porte de um Nicolau
de Cusa e de um Pico della Mirandolla,
que se tornaram o retrato de uma época.
Estudar suas obras pode ser uma maneira
de não só compreender a grande mudança
de Visão de Mundo que se processou
por este período como também o lugar
que a Astrologia ocupa – ou ocupou -
dentro da História do Pensamento Humano
e da Cultura. E só por isso, pelo fato
da Astrologia ocupar ou ter ocupado
um lugar dentro do conjunto dos saberes
humanos, ela deveria ser estudada com
profundidade e respeito.
Este texto não é mais do que uma mera
tentativa de estimular tal empreendimento.