EDIL CARVALHO
edil.carvalho@uol.com.br
ESCLARECIMENTOS SOBRE A PESQUISA
DE MICHEL GAUQUELIN
(tentando lançar uma luz sobre o debate travado entre o astrólogo Maurício Bernis e o jornalista Ricardo Bonalume na Revista da Folha)
Pelo fato de estudar Cosmologia, Antropologia
e Filosofia e me deparar inevitavelmente
com o tema astrológico, tornando-se
também um tema de meus estudos, recebi
várias ligações telefônicas esta semana,
todas motivadas pela mesma dúvida: quem
foi, afinal, Michel Gauquelin? A sua
pesquisa, afinal, confirmou ou desmentiu
o corpo de afirmações astrológicas?
Diante desta situação (e relendo novamente
todos os textos que foram trocados entre
os dois profissionais na Revista da
Folha de número 505 e 507 no mês de
fevereiro de 2002), percebi que em ambos
não se esclarecia devidamente em que
consistiu a pesquisa de Michel Gauquelin
e, principalmente, quais foram as deduções
que o meio acadêmico e astrológico tiraram
dos resultados obtidos; deduções, estas,
que se tornaram responsáveis por toda
uma série de mal entendidos que se seguiram
aos resultados da sua pesquisa e que,
pelo o que vemos, permanece até hoje.
O artigo que aqui escrevo visa a repor
esta lacuna de modo que todos possam
compreender porque a pesquisa ora parece
confirmar a existência do fenômeno astrológico
e, ora, parece desmenti-lo.
Vamos lá: o que podemos dizer sobre
a vida de Michel Gauquelin de modo que
possamos compreender os fatores que
o levaram a desenvolver a pesquisa a
que deu o nome de Cosmopsicologia?
Que desde criança já manifestava interesse
pela astrologia de cunho popular, que
ficou ciente da importância da prova
científica sobre o fenômeno astrológico
quando passou a estudar psicologia e
estatística na Sorbonne, e que foi o
profissional contratado pelo observatório
de Paris para comprovar que o fenômeno
astrológico não existia.
A princípio, Gauquelin se debruçou sobre
as afirmativas e os resultados obtidos
por outros astrólogos (Krafft, Choisnard
e outros) e, para o seu dissabor, descobriu
que os métodos destes pesquisadores
tinham erros e que suas descobertas
eram inválidas. Após muitos anos de
esforço, descobriu que todas as afirmativas
científicas feitas a favor da astrologia
eram falsas, e que nem um único elemento
da tradição astrológica resistia à avaliação
estatística. Em suas próprias palavras,
foi como ser traído pela amada. Tendo
se desfeito de todas as afirmações contidas
na astrologia de cunho popular, ou seja,
da validade dos signos solares, ascendentes
e etc na composição do diagnóstico de
uma personalidade, restava-lhe somente
verificar a existência do fenômeno através
de qualquer outra hipótese astrológica
e, daí, resolveu analisar as duas hipóteses
mais tradicionais existentes na doutrina
astrológica: a herança familiar
e a vocação profissional, sendo
esta última aquela que o ocupou praticamente
dos anos 50 aos 70 e diante da qual
descobriu, com espanto renovado, que
o nível estatístico encontrado ultrapassava
em muito a margem do meramente casual.
Mas o que significa a hipótese da vocação
profissional dentro da astrologia? Significa,
em linhas gerais, que haveria certas
configurações celestes que determinariam
o temperamento do indivíduo e que este,
por ter determinado temperamento, procuraria
normalmente uma determinada profissão
e não outra: os indivíduos mais
introspectivos procurariam a área das
letras, os mais reflexivos procurariam
as áreas científicas, os mais expansivos
procurariam a área política ou artística
e os mais enérgicos procurariam a área
militar ou esportiva e assim por diante.
Para Gauquelin, teria de ser encontrado
um padrão que comprovasse a relação
existente entre astros e profissão,
muito embora esta relação não fosse
direta pois ela se encontrava
intermediada pelo temperamento humano.
O que, para ele, não consistia num problema
mas, sim, no início de uma possível
solução: afinal, aqueles que conseguem
se destacar em determinada profissão
são aqueles que possuem as características
mais adequadas a determinado exercício
profissional, de modo que tal atividade
se torna o prolongamento e a manifestação
mais natural de determinado temperamento
humano.
Para realizar tal empreendimento junto
com a sua esposa, Gauquelin procurou
disponibilizar de quase 15 mil mapas
de notáveis profissionais e mais outros
12 mil de outros profissionais que não
foram tão notáveis assim em sua carreira.
Estudou-se 10 categorias profissionais
de indivíduos que nasceram entre os
anos de 1794 a 1945, certificando-se
de que todos os fatores demográficos,
astronômicos e sociais que estavam sendo
levados em conta garantissem a menor
margem de dúvida com relação a validade
dos dados coletados, tornando este trabalho
o mais severo e rigoroso já empreendido
na área de astrologia neste último século.
Todo este imenso trabalho foi realizado
manualmente, sem o auxílio de um recurso
de que dispomos atualmente: a informática.
Mesmo assim, os resultados obtidos permanecem
altamente significativos, apesar das
inúmeras retificações e avaliações que
foram feitas posteriormente por outros
cientistas e pesquisadores.
Não será possível, neste curto artigo,
expor todos os pormenores desta pesquisa
(1), muito embora seja necessário
mencionar as linhas gerais em que ela
se desenvolveu e as descobertas realizadas.
Por isso, o que devemos saber é que,
ao calcular todos esses mapas que tinham
em comum o grupo profissional a que
pertenciam, descobriu-se que havia
um padrão que se repetia em todo e qualquer
caso, e que o índice era tão relevante
e a repetição tão constante que o acaso
não poderia estar em jogo para explicar
o fenômeno.
Esse padrão foi conhecido inicialmente
pelo nome de efeito Marte, e
isto porque era ele quem revelava a
existência de um fator que aparecia
repetidamente no mapa de militares e
esportistas expoentes: a presença do
planeta marte ou no horizonte do observador,
ou no zênite, ou no poente ou no nadir
astronômicos, que correspondem respectivamente
aos ângulos cardinais de maior significância
em um mapa astrológico, a saber, o ascendente,
o meio-do-céu, o descendente e o fundo-do-céu.
A medida que a pesquisa foi avançando,
descobriu-se que o mesmo padrão se repetia
nos outros grupos profissionais, muito
embora o planeta que entrava em jogo
fosse outro:
para o grupo dos políticos e atores,
descobriu-se que júpiter era
o planeta que figurava numa destas quatro
posições astronômicas;
para o grupo dos filósofos e cientistas,
descobriu-se a relevância do planeta
saturno;
para o grupo dos literatos, a relevância
da lua.
Estes padrões, altamente significativos
do ponto de vista estatístico, estavam
ainda completamente de acordo com a
tradição astrológica que predica ao
temperamento humano uma certa dominância
planetária, a saber:
que os indivíduos de temperamento expansivo
e grandiloqüente teriam júpiter em posição
dominante no mapa;
que os indivíduos de temperamento reflexivo
e detalhista teriam saturno em posição
dominante no mapa;
que os indivíduos de temperamento intimista
teriam a lua em posição dominante no
mapa;
que os indivíduos de temperamento intrépido
e ousado teriam marte em posição dominante
no mapa.
Desse modo, a pesquisa de Gauquelin
comprovou, sem que se quisesse inicialmente,
a hipótese da dominância planetária,
muito embora sua pesquisa não abarcasse
todos os planetas da tradição astrológica
– e isto porque, ao tentar considerar
o sol, vênus e mercúrio, não encontrou
um padrão que fosse igualmente significativo
do ponto de vista estatístico. No entanto,
como encontrava severas resistências
para que o seu trabalho fosse aceito
pela comunidade acadêmica européia,
viu-se diante da obrigação de rever
todo a sua pesquisa e prová-la sob
outra perspectiva – o que tornou
o seu empreendimento ainda muito mais
interessante e inteligente do que já
era.
O que foi, então, que Gauquelin fez?
Se a presença altamente significativa
de determinado planeta nos mapas dos
indivíduos de certos grupos profissionais
não era suficiente para provar e convencer
a ninguém, e se de fato a relevância
do planeta marte no mapa de militares
e esportistas não servia para atestar
nada, por mais que na tradição astrológica
se predicasse que os indivíduos de temperamento
ousado teriam marte como um planeta
dominante no mapa, o que lhe restava
fazer? Restava provar sua experiência
ao contrário, ou seja: se marte
aparece de maneira dominante no mapa
do grupo dos militares e esportistas,
e se marte de alguma maneira não explicável
está relacionada a um certo temperamento
combativo que certas pessoas têm, obviamente
o índice estatístico da posição da lua
nestes mapas deveria ser o inverso,
isto é, baixíssimo, visto que
a lua estava associada ao temperamento
inverso, isto é, a pessoas de temperamento
intimista e introspectivo, o que as
levava naturalmente a ocupar uma posição
na área das letras.
A partir deste raciocínio, Gauquelin
inclusive considerou a possibilidade
de que mesmo no grupo dos militares
poderia haver algum profissional que
fosse descrito como alguém de personalidade
mais intimista – e neste mapa, somente
neste mapa, a posição da lua deixaria
de ocupar um posição sem significado
e passaria a ocupar uma posição mais
significativa, atestando que este indivíduo
era um indivíduo de personalidade
mista, e que integrava dois temperamentos
distintos. Resultado: mesmo analisando
os resultados anteriormente obtidos
em todo e qualquer grupo sob esta perspectiva,
o índice estatístico encontrado só corroborava
o resultado inicial. Ou seja: a sua
pesquisa novamente se reconfirmava
No entanto, tal índice não se mostrava
altamente significativo quando se avaliava
o mapa de profissionais que não haviam
se destacado pelo seu exercício profissional
– e isto se constituiu num ponto polêmico
da sua pesquisa. Afinal, porque este
índice aparecia de maneira significativa
no mapa dos melhores profissionais e
não no mapa dos profissionais de atuação
mediana? Talvez por uma questão óbvia
que tenha passado desapercebida: somente
na biografia das pessoas que lutaram
para fazer a vida de acordo com a própria
natureza e vontade se veria a marca
expressa do seu temperamento, dado
que em condições normais ou adequadas
este temperamento não se revelaria de
maneira tão expressiva e notória.
Para Gauquelin, “a profissão põe ainda
em jogo comportamentos humanos... Os
que conseguem arranjar um nome em determinada
profissão manifestam mais nitidamente
que os outros as tendências fundamentais
que se escondem sob a etiqueta profissional (2) ”.
No mais, como todo o seu esforço estava
comprometido em levantar provas estatísticas
que atestassem a existência destes padrões,
se viu impossibilitado de levar a cabo
a continuidade da sua pesquisa e
provar a relação existente entre certa
dominância planetária e o temperamento
do biografado, por mais que em suas
tabelas anotasse quantas vezes determinado
adjetivo tinha sido predicado a um indivíduo.
Afinal, por entre os índices altamente
significativos das estatísticas, havia
a confirmação velada da dominância planetária,
conservada inclusive na linguagem corrente
com que se adjetiva determinados atributos
psicológicos: um temperamento lunático,
um passo marcial, um semblante
jovial e etc.
Mas este trabalho, propriamente astrológico
e de natureza psicológica, não foi e
não pode ser realizado com o mesmo rigor.
Talvez seja por isso que Gauquelin fez
questão de frisar que “se bem que tenhamos
obtido fatos positivos a partir de um
material de aparência astrológica na
origem, é evidente que esses resultados,
por mais espantosos que sejam, devem-se
explicar em termos científicos e não
em termos astrológicos. Melhor: eles
são uma nova e poderosa crítica dessa
superstição (3) ”.
Esta observação de Gauquelin é que o
tornou tão mal compreendido pela própria
comunidade astrológica, pois, para ela,
o próprio pesquisador se recusava a
admitir a natureza do trabalho que realizava,
muito embora ele soubesse e reconhecesse
que o seu trabalho se dava, sim, num
contexto de natureza astrológica. No
entanto, Gauquelin reconhecia também
que a sua comprovação se dava através
de um método estatístico que se debruçava
sobre um fenômeno simultaneamente astronômico
e humano - e nada mais por enquanto.
Talvez ele tenha colocado a questão
nestes termos por uma questão estratégica,
dado que a comunidade científica da
época estava pronta – e ainda está –
a combater drasticamente qualquer prova
a favor da astrologia, sem examiná-la
com o mesmo rigor, dedicação e paciência.
Afinal, se Gauquelin insistisse em descrever
verbalmente a sua pesquisa como sendo
de natureza astrológica, desde já não
seria sequer lido e moveria toda e qualquer
espécie de preconceito da comunidade
acadêmica. Porém, se colocasse a pesquisa
nos termos exigidos pelos moldes científicos,
isto pelo menos a colocaria numa condição
de análise e leitura. Ou, pelo menos,
numa condição de maior respeitabilidade
visto que a atitude intelectual que
os astrólogos assumiam frente a própria
disciplina era digna de pena e de descrédito.
Afinal, ele, melhor do que ninguém,
condenava as pretensões científicas
dos seus colegas de classe que tentavam
abordar a astrologia através de uma
metodologia completamente inconsistente,
além de terem desenvolvido também uma
resistência quase que neurótica em examinar
as evidências negativas da disciplina
que praticavam.
Apesar do seu esforço metodológico e
argumentativo, a comunidade acadêmica
jamais recebeu bem a sua obra. Os dados
de Gauquelin, juntamente com a saga
que cerca estes dados, constituem um
dos mais importantes episódios acadêmicos
do século. A saga, contada em detalhes
(4), revela - talvez melhor do
que qualquer outra história em particular
- a natureza verdadeiramente inquisitorial
da Igreja científica na busca pretensa
do conhecimento e da verdade. Por isso,
o manifesto que foi movido em
1976 por 186 notáveis cientistas contra
a astrologia demonstra, tal como disse
Paul Feyerabend, uma ignorância dos
mais recentes resultados em seus próprios
campos (astronomia, biologia e a conexão
entre os dois), bem como numa carência
para perceber as implicações dos resultados
que conheciam. Mostra a dimensão de
quanto os cientistas estão prontos a
afirmar sua autoridade, até mesmo em
áreas em que não possuem qualquer conhecimento.
Ao ser indagado se iria ou não assinar
tal manifesto pelos seus colegas cientistas,
Carl Sagan disse que se sentia incapaz
de endossar o manifesto “Objeções a
Astrologia”, não porque sentia que a
astrologia tinha o que quer que seja
de validade - mas porque sentia que
o tom da afirmação era autoritário...
Por isso, o resultado da pesquisa de
Michel Gauquelin teve uma repercussão
ambígua: apesar dele ter conseguido
demonstrar estatisticamente que há
uma relação considerável entre a dominância
planetária no mapa de indivíduos que
se destacaram em determinada profissão,
obteve o desprezo e o rancor:
a) da comunidade astrológica porque
a sua pesquisa se limitou somente sobre
uma única hipótese de toda a doutrina
e, ainda assim, sobre a dominância de
4 planetas e não de todos os outros,
tendo esta pesquisa sido descrita de
uma maneira onde se revelava uma preocupação
de não apresentá-la como uma pesquisa
exclusivamente astrológica;
b) da comunidade acadêmica que sequer
queria conceber a possibilidade de haver
uma relação entre estrutura astronômica
e um evento humano, por mais que ela
tivesse sido provada e reanalisada por
outros pesquisadores que não chegavam
a um resultado muito diferente do já
obtido, jamais abalando a estrutura
da hipótese comprovada
Aliás, muita pouca coisa foi invalidada.
O que ainda não foi comprovado (a menos
ou até que se estabeleçam testes que
produzam resultados contrários) é a
capacidade dos astrólogos interpretarem
científica e quantitativamente o horóscopo
– uma questão totalmente diferente.
Mas isto já é assunto para um outro
artigo a ser realizado num futuro, que
poderia explicar inclusive a pesquisa
feita pelo estudante de física da Universidade
da Califórnia Shawn Carlson que foi
publicada na Revista Nature em
1985 – outra pesquisa da qual surgiram
deduções equivocadas.
De qualquer modo, é por isso que o debate
em torno do tema astrológico sempre
se torna polêmico e confuso.
Edil Carvalho
17/02/2002
NOTAS
(1) o que poderá ser feito, no entanto, no seu próprio livro COSMOPSICOLOGIA, editado em Portugal pela Ática em 1977 ou nos sites http://cura.free.fr/gauq/11gdcura.html, http://cura.free.fr/gauq/13gdcura.html e http://www.skepsis.nl/mars.html.
(2) in O SIGNIFICADO DA ASTROLOGIA, de Elizabeth Teissier, pág 116. Libraria Bertrand, Portugal, 1979.
(3) no mesmo livro acima, pág 121.
(4) Vide EM DEFESA DA ASTROLOGIA, de John Anthony West, Editora Siciliano, 1992