EDIL CARVALHO
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ASTROLOGIA:
UM CONHECIMENTO INGÊNUO OU SOFISTICADO?
ou a parábola do periscópio

 

“Segundo Piaget, as duas tendências mais naturais do pensamento são: (A) a de nos aceitarmos como centro do mundo; (B) a de convertermos em normas universais as regras ou mesmo os hábitos de nossa conduta. Tais tendências mostram-se presentes e espontâneas nos estágios iniciais do desenvolvimento individual e são características do conhecimento ingênuo. Precisamente estas duas tendências são submetidas a um processo de ruptura quando se parte à construção de modelos mais sofisticados, como o são os conhecimentos de tipo científico. Tal ruptura é facilitada pela prática da comparação que supõe todo um processo de sistematização e não meramente de acumulação aditiva de informações. Conforme observa, a primeira condição para que se proceda à sistematização é uma ruptura, ou seja, a passagem do plano individual para o epistêmico, este identificado como núcleo cognitivo comum a todos os sujeitos situados no mesmo estágio de desenvolvimento”.

Antonio Carlos Penna, in História das Idéias Psicológicas

 

Quando criança, não tinha altura suficiente para enxergar o que se passava para além do muro que cercava o prédio onde morava. Sentava-me à sombra que projetava esta imensa parede de concreto e ficava a ouvir as vozes das pessoas que passavam pela calçada. Era homem? Era mulher? Era criança como eu, ou era a vizinha? Gastava tardes assim, tentando discernir, através do muro intransponível, se o homem que assobiava era loiro ou se as passadas intermitentes e frenéticas produzidas por um par de saltos eram de uma mulher alta ou baixa.

Este empreendimento, é claro, nunca chegou a bom termo, e nem poderia: tendo somente os recursos auditivos à minha disposição e a fértil imaginação típica de uma criança, jamais discerniria com clareza decisiva o que se dava e ocorria por detrás desse obstáculo de cimento e tijolo que, por anos, não passou de uma diversão, de um brinquedo, em meio a tantos outros. Assim me divertia, muito embora o meu playground não fosse constituído só de luzes, alturas e sons: dentro do universo encantado em que vivia, onde os caroços de feijão brotavam vagarosamente no algodão, eu também lia.

Lia. Tinha, a meu dispor, uma enorme enciclopédia de assuntos os mais variados, que iam desde contos selecionados até a confecção de instrumentos maravilhosos - tais como o cata-vento e o inesquecível periscópio. Reuni toda a minha mesada para poder comprar o conjunto de espelhinhos necessários à confecção deste último instrumento, sabendo, desde então, que nenhum muro, por mais alto que fosse, continuaria sendo um obstáculo a minha altura diminuta. Carregava todo o punhado de moedinhas que conseguia conter nas mãos como quem já carregava uma arma que derrotaria definitivamente aquele imenso gigante que só me oferecia sombra e musgo, limitando o meu conhecimento e a minha visão com relação ao que se passava na rua e na calçada.

Não tenho nem como descrever a explosão que se deu em meu cérebro quando o jato de luz, vindo do outro lado da rua, ricocheteou nos três espelhinhos dispostos dentro da estrutura de cartolina preta, trazendo a imagem do que lá se passava. Se até então nunca soube o que era magia, este talvez tenha sido o momento inaugural daquilo que, hoje, posso chamar de “a mais perfeita mágica”: eu via.

Via. Como se fosse um cego titubeante, como se vivesse em trevas absolutas, e como se estivesse acobertado por uma imensa noite cuja existência ignorava e da qual só pude me conscientizar por causa desse jato de luz que a feria, e que me trazia a informação límpida e entrecortada do se passava atrás do muro e na calçada, me descobria como alguém que havia contornado um obstáculo ao conhecimento e à visão, e que, agora, tomava consciência dos fatos – e sabia.

Hoje em dia, quando penso nos inúmeros obstáculos ao conhecimento vejo que, tal como eu, diversos pensadores encontraram um jeito de obter uma imagem clara e nítida do que pretendiam conhecer mas que, na maioria das vezes, estava acobertado por um muro imenso, que se supunha intransponível – mas que foi transposto, mesmo que parcialmente. Se assim não fosse, como explicar o empreendimento, por exemplo, de um historiador que tem de transpor a barreira do tempo e reconstituir toda uma época ? Como explicar o empreendimento de um astrônomo, que tem de transpor a barreira do espaço e reconstituir toda a imensidão do universo ?

Eis a maneira de explicar: cada pensador encontra um instrumento que lhe permita enxergar indiretamente aquilo que não pode ser conhecido diretamente, visto os obstáculos que existem. Cada pensador, à sua maneira, cria seu periscópio, tal como construí quando criança, tentando obter uma visão, um retrato, uma imagem fiel e nítida do objeto que é de seu interesse.

E eis a parábola: porque aquilo que não pode ser conhecido diretamente e imediatamente – seja por que motivo for - pode ser conhecido indiretamente e mediado por um instrumento que foi e é construído ao longo de séculos de pesquisa e investigação. E este instrumento é o próprio conhecimento reflexivo ou teórico. Ou científico. Fica a seu encargo refletir o real, o fato e o fenômeno da maneira mais fiel possível e, visto por este prisma, o melhor conhecimento ou o conhecimento mais verdadeiro é aquele que espelha com alto grau de fidelidade e de clareza o real, o fato e o fenômeno.

Sabemos que nem todo o conhecimento consegue atingir tal proeza e refletir a totalidade do real em sua imensa multiplicidade e variedade. No entanto, me parece que esta é a função do conhecimento ou a direção que involuntariamente toma, por mais que se desvie provisoriamente e por mais que hajam pedregulhos ao longo do caminho e em sua árdua trajetória. Afinal, para que uma criança enfim pudesse se munir de um periscópio e enxergar o que se passava atrás do muro, quantos anos foram gastos para se entender as leis da ótica, da perspectiva, para se entender como se extraía a celulose da árvore e a transformava em cartolina, para se entender com se transformava um cristal mineral em espelho??

Séculos. O conhecimento a que me refiro e do qual falo é elaborado ao longo dos séculos. É feito da conversa e do debate solitário e invisível que se dá entre homens que viveram em tempos e gerações as mais diversas, e que carregam adiante a tarefa na maior parte das vezes pesada e ingrata de ir conectando os emaranhados fios que se acumulam no sótão do pensamento, até que se estabeleça um circuito tão desconhecido quanto procurado que acaba provocando luz e iluminando toda a casa. O conhecimento a que me refiro repousa o espírito, e permite que se dê passadas mais largas.

Por isso, contar única e exclusivamente com o testemunho da própria visão e avaliar todas as coisas por este prisma individual e pessoal é submeter o conhecimento à ótica de um ser que gripa, engorda e enlouquece, de quem perdeu a dimensão e a referência da espécie e das suas conquistas fecundas. É, inevitavelmente, ter-se esquecido do nosso imenso patrimônio intelectual, do legado da cultura. De tal modo que é mesmo comum não perceber a condição limitante que nos impõe nossa visão pessoal e os artifícios de que o homem se utiliza para transpor esse limite, isto é, os conhecimentos sofisticadíssimos que erguemos e construímos com a finalidade única e exclusiva de enxergar o que se passa e se dá para além da nossa cegueira congênita, de nossa ignorância inata.

Somente um conhecimento de tal natureza e de tal envergadura pode corrigir os eventuais equívocos e as distorções corriqueiras que cometemos quando contamos única e exclusivamente com a nossa visão pessoal para compreender o que se passa. Somente um conhecimento como este pode dar a real dimensão daquilo que testemunhamos por experiência pessoal e percebemos pelos sentidos. E este conhecimento - que não é obtido pelos sentidos - é obtido pela reflexão. É ela quem faz o conhecimento se erguer e descortinar horizontes inimagináveis até então.

Se assim não fosse, todo assobio alegre que havia ouvido atrás do muro seria mesmo de um homem loiro, bem como as passadas mais lépidas e apressadas seriam de uma mulher baixa. Porém, como não percebia a esparrela intelectual em que havia caído, ia estabelecendo uma série de analogias entre os tipos de pessoas que passavam pela calçada e as informações que detectava por detrás do muro; analogias - não preciso nem comentar - ingênuas e pueris. Afinal, não era negro aquele que cantava samba e dava arroto. E não era loira aquela de compasso lento e desleixado.

Percebi, com o periscópio, os inúmeros equívocos que estava cometendo ao contar somente com meus recursos auditivos e imaginativos para construir um conhecimento dos tipos de pessoas que passavam por detrás do muro, isto é, para construir um conhecimento dos caracteres humanos, para construir a “minha pequena tipologia”, que precisou ser toda revista e consertada mais adiante, quando cresci.

Hoje, na condição de astrólogo e pesquisador – e na condição de quem conheceu muito cedo as armadilhas dos sentidos – vejo a facilidade com que se estabelecem analogias entre um símbolo astrológico e um comportamento humano; analogias que são tão ingênuas e pueris quanto à brincadeira que me propus quando criança. Analogias, pois, que precisam ser revistas e consertadas.

Não creio, entretanto, que isto seja possível no meio astrológico, visto que a maioria dos seus profissionais está tão enfurnada dentro do apertado limite que lhe impõe a experiência clínica que sequer concebe que qualquer avanço que possa se dar ao conhecimento que pratica dependerá de um tremendo esforço de reflexão e análise, ou seja, dependerá da tentativa de organizar e sistematizar os resultados mais variados obtidos pelas técnicas mais diversas, usadas pelos “seus colegas de profissão”, os outros astrólogos.

Aliás, todo astrólogo que se preze deveria lembrar – ou saber – dos terríveis impasses que a própria psicologia passou (e passa) para se constituir como forma de conhecimento que não reflita unica e exclusivamente a opinião pessoal de seus pesquisadores. É o próprio Georges Canguilhem (1970), grande historiador das ciências, e que realizou um dos mais sofisticados esforços para sistematizar e periodizar a história da psicologia, quem propôs contundentes objeções à cientificidade da mesma, afirmando que de muitos trabalhos que pretendem exprimi-la retira-se a impressão de que resultam de:

1. Uma filosofia sem rigor;

2. Uma ética sem exigências;

3. Uma medicina sem controle.

Ele ainda acrescenta que, diante da dificuldade de estruturar tal conhecimento, visto a dispersão e a variedade dos resultados obtidos, surge uma outra conseqüência grave: a impossibilidade de se caracterizar a especificidade do próprio psicólogo enquanto profissional, que acaba se amparando na eficácia da técnica por ele utilizada – discutível, contudo, pelo fato de não estar fundamentada e inserida dentro de um corpo de conhecimentos que demonstre claramente o âmbito e o limite em que ela se torna válida e aonde pode ser aplicada.

Não poderíamos, pois, dizer o mesmo da astrologia, ou melhor, do estado em que este conhecimento se encontra? Não poderíamos também dizer o mesmo da prática astrológica atual, da atitude do astrólogo como profissional que defende o seu conhecimento se amparando numa legítima conduta ética, muito embora este conhecimento sequer tenha se arranjado de maneira clara e nítida, isto é, sequer tenha sido exposto por conceitos unívocos, sequer tenha definido o seu objeto e os seus limites - que curiosamente são exigências de um conhecimento sofisticado ? Afinal, o estado em que o conhecimento astrológico se encontra é ou não de alguma ingenuidade?

Aliás, o que a maioria dos astrólogos sabe de ciência, epistemologia, cosmologia, astronomia, filosofia e metafísica ? Nada – e nem quer saber. A sua maioria crê que a disciplina da astrologia é suficientemente independente e autônoma para prescindir do diálogo com as outras disciplinas – o que acaba colocando-a numa situação de alienação e marginalidade dentro do quadro dos conhecimentos existentes. Por isso é que podemos dizer que o conhecimento que a astrologia exige está muito além do que o seu profissional realmente assimila, visto que se limita a um conjunto de regras interpretativas e a um conhecimento superficial de simbólica: é só contar quantos livros estão dispostos no mercado editorial e nas prateleiras do dito profissional sobre “Técnicas de Interpretação” e quantos outros existem sobre outras disciplinas correlatas, ou até mesmo sobre “História da Astrologia”. O desnível é impressionante – o que, por si só, seria suficiente para suspeitar do nível e da qualidade do conhecimento do dito praticante profissional, por maior que seja a experiência clínica que alega ter.

Na realidade, nós, astrólogos, não temos um conhecimento que seja fruto de um material crítico bem elaborado, que leve inclusive qualquer outro indivíduo a refletir sobre a astrologia ao invés de encará-la como um instrumento de entretenimento e diversão que dá até algum trocado e ibope. Mas, num futuro mesmo que distante, isto necessariamente deverá ocorrer. E ocorrerá porque sempre existiram pessoas sérias e maduras comprometidas com o desenvolvimento do Conhecimento e do Homem. Quero crer que algumas dessas pessoas venham a se comprometer com a astrologia, a única disciplina que procura avaliar se há algum sentido entre o universo cósmico & humano, se há uma Razão Maior que reja a ambos. Afinal, somente quem descortina a envergadura do conhecimento astrológico poderá se dar conta do imenso trabalho que ela exige e vislumbrar que toda a sua arquitetura teórica tem a idade de uma civilização, forma de calendário e função de bússola, e que todas estas representações não passam de registros que testemunham os passos e descompassos da espécie em sua eterna dança..

Edil Carvalho
17/02/2002

 

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