EDIL CARVALHO
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POR UMA TEORIA SIMBÓLICA

Introdução

 

Se lançarmos de novo um olhar sobre todo o discurso astrológico de “analogia”, “conformidade”, “correspondência” e “correlação” entre o plano superior dos astros e o plano inferior, representado pelos destinos terrenos, não poderemos deixar de constatar que em tais termos se misturam com freqüência exagerada elementos genericamente conhecidos e elementos especificamente astrológicos - elementos que convencem a todos e elementos altamente controversos. E no seu uso impensado se ocultam diferenças importantes por debaixo de fórmulas sofisticadas e sugestivas. Cada vez que se usam tais palavras cabe indagar de que tipo de analogia se está falando. Um diálogo significativo entre concepções antagônicas se sustenta com tais esclarecimentos; adoece quando insistimos em manter a polivalência das palavras.

Siegfried Böhringer, in Astrologia – Cosmo e Destino – Ed Vozes - 1992

 

Uma das descobertas mais interessantes do filósofo espanhol Ortega Y Gasset [1] é a do pensamento confundente: para ele, confundir é uma função extremamente necessária pois é ela quem permite descobrir conexões e semelhanças insuspeitadas entre realidades de diversas ordens. O pensamento confundente é aquele que consiste formalmente em estabelecer analogias, ou seja, em identificar tudo o que uma coisa tem a ver com a outra. Na qualidade de astrólogos, quando dizemos, por exemplo, que a Lua tem a ver com a Mãe ou que Marte tem a ver com a Guerra, estamos admitindo que um fator de ordem astronômica tem uma semelhança - ou guarda uma analogia - com um fator de ordem familiar e histórica, respectivamente.

Mas a nossa mente, inquieta, pode perguntar: qual o grau de semelhança entre um e outro fator? Qual a extensão e a natureza desta analogia? Ao formularmos estas perguntas, entramos numa condição que nos permite perceber que, apesar de constatarmos que há uma semelhança entre uma e outra coisa, não sabemos dizer e explicar para nós mesmos de que natureza ela é. Percebemos a analogia – mas não sabemos discernir com clareza e precisão a sua natureza. E isto ocorre porque, para Ortega, depois de se confundir, torna-se sumamente importante distinguir, tirando as coisas do umbral de semelhanças em que se encontravam para enfim conferir-lhes fisionomias nítidas e próprias. Parece, assim, que o conhecimento se desenvolve e se aprimora através deste processo: através de confusões e distinções sucessivas, sendo que a segunda operação melhoraria e elevaria o conhecimento proposto pela primeira.

Ortega ainda observa que o pensamento confundente é o pensamento típico do homem primitivo e que, ao lado desta forma primitiva de pensar, há de se colocar outra oposta para o seu próprio desenvolvimento, que é executado pelo pensamento abstrativo e cuja função vital é distinguir. Confundir e distinguir: eis o passo inicial e final que todo conhecimento toma, muito embora isto não seja a garantia de que o trajeto seja percorrido sem nenhum tombo ou atropelo, tanto no seu início quanto no seu fim.

Diante destas breves observações, já se torna impossível evitar certas perguntas: o conhecimento astrológico não procura fundamentalmente isto, ver o que uma coisa tem a ver com a outra? Não estaria então o conhecimento astrológico num estágio primitivo? Ou melhor: em que grau de distinção o conhecimento astrológico já se elevou? Quando pararemos de abordar a Astrologia pelo pensamento confundente e começaremos a abordá-la pelo pensamento abstrativo?

Edil Carvalho
17/02/2002

 

TOPO

NOTA

[1] Ideas y Creencias, Ortega Y Gasset – Alianza - 1999